Sai Dilma, fica Temer,
nos disse a mídia.
Estamos atravessando uma grave crise hídrica, com os reservatórios das hidrelétricas em níveis abaixo dos 15%, e você sequer foi informado. Não faz muito tempo, quando, mesmo com os nossos reservatórios acima dos níveis atuais sofremos um bombardeio diário falando do risco do apagão. Em janeiro de 2013 a revista "Isto É" estampou a manchete: "Possibilidade de racionamento afeta confiança de empresários, dizem economistas".
A campanha massiva contra Dilma continuou com alguns motes desqualificantes como "o país está parado" época em que ainda contávamos com inúmeros canteiros de obras Brasil adentro, construção de imóveis residenciais, estradas, portos, estaleiros, plataformas de petróleo, o país voltando a fabricar navios, o comércio vendendo como nunca.
A mídia fez constantes campanhas objetivando paralisar o governo Dilma, inclusive algumas de cunho divinatório como os ataques diários: "a Copa vai ser um fracasso".
O que mais se viu durante o ano de 2013 foram matérias jornalísticas recheadas de frases como; “o gigante acordou”, “o país está parado”, "crise de abastecimento", “a inflação voltou”, e muitas outras de caráter destrutivo.
Um jornalismo tendencioso e desinformativo que induziu a população ao medo e pessimismo, cuja consequência não poderia ser diferente de fazer o país quase colapsar e enfraquecer Dilma. A paralisação do seu governo foi por achincalhamento e pelo boicote criminoso do Congresso, capitaneado por Eduardo Cunha, herói de muitos na época.
Na sequência da omissão midiática das realizações do governo Dilma e da desconstrução dos seus acertos, começaram os ataques diários e sistematizados com o eufemismo da "pedalada fiscal".
Nada neste sentido de negativismo orquestrado é visto contra o governo Temer. Não há cobertura sugerindo ações mais efetivas contra a corrupção de Temer e seus assessores.
Ao contrário, a noção que a mídia nos passa é a de que o Brasil está voltando aos trilhos, como se isso fosse possível frente a imensa desorganização institucional atual, juntamente com a série de denúncias do Ministério Público contra Temer, seus ministros e contra a maioria dos parlamentares.
Comece, agora, a perceber que dificilmente Temer cairá.
A não sistematização por parte da mídia não levará milhões de pessoas às ruas como fizeram com Dilma.
Para se entender os processos; o que a grande imprensa queria não era a mera deposição de Dilma pelas "pedaladas". O que se articulou foi um movimento que fizesse voltar ao governo - já que pelas urnas não foi possível - representantes do mercadismo. Esse foi o real motivo da derubada de Dilma e para a continuidade do governo Temer, mesmo ele recebendo inúmeras denúncias muito mais graves do que a sua antecessora.
O que se pretende com este artigo não é uma defesa de Dilma, e sim uma crítica aberta à mídia hegemônica brasileira. O sistema não deixaria descompromissado o maior meio de informação das populações, a chamada grande imprensa.
O discurso massificador esquece que a mídia tem o direito de informar, mas tem a obrigação de não enviesar, sob qualquer pretexto, suas coberturas jornalísticas.
A ideia de se manter os grandes conglomerados de informação intocados atende ao objetivo de controlar os meios centrais de informação.
A defesa da manutenção do que aí está usa a retórica da livre competição. Mas a mobilidade é possível na sua forma horizontal, entre os de muitíssimo dinheiro. Apenas os grandes podem comprar os grandes. É impossível a mobilidade vertical pelo valor altíssimo que a concentração dos veículos de informação fizeram alcançar.
O sistema, além de pretender manter seus privilégios e o controle da informação , cria empecilhos à criação de outros veículos - mesmo de porte infinitamente menores. Para tanto, bombardeiam qualquer iniciativa de se pulverizar as verbas publicitárias governamentais e agridem os congressistas quando tentam criar normas que possibilitem a desconcentração do setor. Portanto, não se trata de defesa de democracia coisa nenhuma, o que se quer é a manutenção dos privilégios, o controle da informação e a submissão dos governos.
Nas sociedades liberais o próprio cidadão tem seus limites estabelecidos nas leis. Então, por que uma corporação, qualquer que seja ela, poderia estar fora de regulamentações setoriais?
Mídia - Mercado - Controle da Política.
O que a mídia brasileira faz é uma verdadeira lavagem cerebral pró-mercado, quando, ao invés de informar com equidistância, defende de forma repetitiva os benefícios do mercado e nunca os seus prejuízos, ao mesmo tempo que esconde os efeitos colaterais da concentração.
Esse condicionamento levou a sociedade brasileira a acreditar que todos os seus problemas seriam resolvidos pelo tão clamado mercado.
Para atingir e manter a aceitação de tal ideia, o sistema de mercado se utiliza da mídia para induzir a população a acreditar em dois princípios básicos:
1) que os políticos são a causa de todo mal (quem nunca ouviu várias vezes o dizer que "nenhum político presta"?);
2) que além da política, e melhor do que ela, existe o mercado como equilibrador das relações e solucionador dos nossos problemas.
Com o aumento dos custos das campanhas eleitorais, o sistema encontrou a pá e o cal para enterrar a liberdade da atuação dos parlamentares. A cooptação então passa a acontecer em duas frentes:
1) pelo massacre diário de tudo que é relacionado aos políticos.
Essa ação coloca sob controle os parlamentares que passam a ficar reféns das informações midiáticas muitas vezes lastreadas em fatos inventados ou atacam massivamente alguns políticos, enquanto protegem outros (já imaginou como seria a cobertura do helicóptero da cocaína se fosse de um político não alinhado?);
2) pelos altos custos das campanhas, que fazem nossos políticos ficarem subordinados aos seus financiadores.
A informação dos 8 principais partidos é de que para eleger um deputado federal seria necessário um gasto acima R$ 5,000 milhões, ver em: https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2014/08/02/interna_politica,554453/amp.html
O discurso majoritário esquece que a mídia tem o direito de informar, mas tem a obrigação de não enviesar, sob qualquer pretexto, suas coberturas
Tal manipulação, por submeter os políticos ao que quer o mercado, trouxe como efeito colateral o não cumprimento das suas promessas de campanha e por extensão o distanciamento dos seus eleitores, coroando definitivamente...
....a falência do modelo de representação,
como preconizava as Constituições democráticas; e a nossa logo no seu artigo primeiro: "Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição."
Não é mais o povo quem delega o seu poder e controla as ações políticas. Tal função passou a ser exercida pelo mercado.
Por isso, tanto desequilíbrio e desordem.
E, portando, o esgarçamento da própria democracia.
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