terça-feira, 23 de maio de 2017

Diferenças

"Dando um salto epistemológico da origem desse conhecimento à sua validade atual, na guerra ideológica, nomeadamente desde a Revolução Francesa em 1789, a direita confia que as desigualdades sociais possam ser diminuídas à medida que se favoreça a competitividade geral. Minimiza a proteção social e maximiza o esforço individualista de competição. A esquerda prioriza a proteção altruísta dos derrotados na competição social. Na escolha entre a competitividade e a solidariedade, prioriza esta última.

O termo altruísmo designa uma atitude solidária oposta ao egoísmo, que a direita aponta como a maior característica humana. É parecido com “o amor ao próximo”, abordado pelo cristianismo, mas se distingue dele porque não está baseado no sobrenatural. O altruísmo não é uma característica exclusiva do ser humano, pode também ser encontrada nos animais, especialmente nos mais evoluídos.

O que define a posição de direita é a ideia de que a vida em sociedade reproduz a vida natural, com sua violência, hierarquia e eficiência. Se os homens são seres biológicos desiguais, devem submeter-se à lei do darwinismo social. Segundo essa concepção, a sociedade mercantil faz também a seleção, neste caso “social”, entre os indivíduos vencedores que podem se desenvolver e os perdedores que podem apenas sobreviver.

A regra de ouro da direita é: “quem melhor se adapta ao meio ambiente econômico enriquece, inclusive dando continuidade a sua dinastia”. O homem de direita, acima de tudo, preocupa-se com a defesa da tradição e da herança das propriedades.

Já a atitude de esquerda pressupõe que a condição humana é fundada pela negação da herança natural. A sociedade se desenvolve, opondo-se às forças cegas da natureza. Nada mais parecido com o livre-mercado do que a livre-natureza. Quem acredita na essência humana como essencialmente egoísta e imutável se posiciona à direita."

Um resumo fora do contexto original de um artigo de  Fernando Nogueira da Costa, "Re-evolução", no site GGN

Triskle

Triskle é um antigo simbolo druida que traduzido significa Energia Divina.

O triskle celta é um elemento geométrico com três espirais sagradas que manifesta e representa a divindade, o princípio e o fim, a eterna evolução, o movimento, a vibração e a infinda aprendizagem. Transportar este símbolo druídico, é como levar os deuses consigo.

O triskle tem vários significado​s: a tripla manifestação da energia divina - Força, Sabedoria e Amor. Representa as três manifestações que tornam possível a evolução humana: Corpo, Alma e Mente.

Nas Tradições Pagãs está diretamente ligada as energias tríplices, tais como magnetismo, eletricidade e neutralidade. A planos de existência; físico, mental e espiritual. A processos da existência; Vida, Morte e Renascimento e entre a grande maioria das religiosidades e tradições, principalmente as ligadas a Bruxaria , representa os aspectos da Deusa; Virgem, Mãe e Anciã, tendo na conexão ou no círculo o quarto aspecto, a ceifadora. Sendo assim um símbolo de poder e exaltação da Grande Mãe.

Para os pagãos é um símbolo de continuidade, de fluxo e sabedoria. Para os Cristãos é um símbolo do poder da Santíssima Trindade.

Para completar, é um dos símbolos de mestre do Reiki Egípcio - O Seichim Sekhem/SKHM que entre outras utilidades traz proteção.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Sem suporte da mídia, do mercado e do Congresso, Temer agoniza

Está mais do que claro que o governo acabou

LUÍS COSTA PINTO

CALMA! ALL WE NEED IS LOVE

Na esteira da deposição de Dilma Rousseff, há pouco mais de um ano, ascendeu ao poder um grupo chancelado pelo establishment financeiro nacional e simpático às teses e à agenda da mídia tradicional brasileira.

O processo pelo qual essa turma chegou ao comando do Executivo sempre foi marcado pela ausência de legitimidade, uma vez que se criara várias teses jurídicas tortuosas a fim de validar o processo de impeachment levado a ferro e fogo pelo presidiário Eduardo Cunha, à época presidente da Câmara.

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A ilegitimidade foi mascarada com demãos de verniz de legalidade, afinal teses jurídicas e interpretações constitucionais se prestam a isso. No longo e custoso intervalo de um ano o Brasil esteve entregue a uma turma que se gabava de atropelar a tudo e a todos por ser confiável na entrega: conduziriam a Nação até 2018 atrelando os interesses de Estado à agenda do mercado e aos sonhos até então inconfessáveis das lideranças liberais, como as alterações profundas na legislação trabalhista. Tudo embalado no apoio explícito que a mídia tradicional lhes conferia.

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FriboiGate paralisa Congresso: 16 MPs de Temer correm risco de expirar

‘Diretas já’ e eventual queda de Temer foram assimiladas por internautas

Às 19h30 da última 4ª feira (17.mai.2017) esse esboço de roteiro de propaganda de margarina começou a se converter em thriller de terror. Foi quando o colunista Lauro Jardim, de O Globo, detonou a bomba da delação premiada do empresário Joesley Batista fazendo somar ao inferno tupiniquim essa novidade que é o monitoramento guiado de delatores. Um fato por si só explosivo, a divulgação de conversas abjetas no porão de um palácio brasiliense, significou também a ruptura dos veículos das Organizações Globo com a coluna midiática que compunha o tripé de suporte do grupo que depusera Dilma.

O toque de recolher da Globo, que vem sendo fustigada de forma atabalhoada pelo Palácio do Planalto e tratada com uma vileza de golpes que não lhes foram desferidos (por covardia) nem mesmo pelos petistas Lula e Dilma, amedrontou a coluna de apoio parlamentar do tripé e fez desmoronar as bases da terceira coluna, a do mercado, que já não crê mais na possibilidade de esse grupo entregar as reformas liberais até a eleição de 2018 –se elas seguirem no calendário.  E advirta-se: a bomba atômica capaz de liquefazer o que resta de concreto nessa estrutura pastosa será qualquer eventual proposta de mexer no calendário eleitoral do próximo ano.

A síntese óbvia, clara, cristalina do que temos hoje é a persistência de um governo que respira por aparelhos, não possui instrumentos cirúrgicos capazes de lhe devolver vitalidade e dispensou a equipe médica que lhe dava esperanças: a Globo e seu arsenal historicamente competente usado para construir e para assassinar reputações. Para revogar e para revigorar agendas. Para criar climas e anticlimas.

Sem a Globo chancelando os áulicos palacianos, o mercado financeiro passa a tratá-los com desprezo despudorado também.  Afinal, para os operadores, não há governo bom ou ruim. Há, sim, governo útil ou inútil. O atual já não lhes é mais útil. Por conseguinte…

Por fim, sem a Globo e sem a chancela do mercado, do establishment financeiro, por que uma maioria parlamentar imolaria suas biografias (em alguns casos, prontuários) na defesa de uma agenda capaz de pulverizar-lhes votos e angariar-lhes ódio popular?

Essa é a equação de subtrair que ora se opera em Brasília, mas a semana que entra chegará ao fim, inexoravelmente, com uma nova conta: dessa vez, de somar.

Surgirá um nome de perfil de centro-direita, liberal, com autoridade para restaurar a agenda reformista e fazê-la passar no Congresso. Tendo coragem para tal, rapidamente reunificará em torno de si a antiga base parlamentar do governo que se vai. Cumprida mais essa etapa, estarão postas as condições para uma reunificação do consenso midiático tradicional em torno desse nome e com isso o compromisso de realizar eleições em 2018 correrá menos riscos. É óbvio que se buscará um crivo legal, constitucional e legítimo para todo esse processo. A busca está nas ruas largas de Brasília, na Avenida Paulista e na Avenida Atlântica, no Rio. Haverá fumaça cinza saindo desse consistório em breve.

Há o risco, real e não calculado ainda, de um desarranjo de tamanha envergadura nas ruas que a carência de chancela popular –ou seja, de voto mesmo, do poder que emana das urnas– inviabilize reformas mais agudas. Esse será o pano de fundo da peleja, já aberta e legítima, entre defensores do rito constitucional de eleições indiretas versus advogados do poder popular expresso em eleições diretas pelas quais lutamos tão bravamente há apenas duas gerações.

Os elementos dados e postos sobre a mesa deixam mais do que claro que o governo atual acabou. A ponte que havia desenhado não ficou de pé, os pilares ruíram. Há razões e contra-razões nas duas teses que se digladiarão, a de escolha indireta de quem terminará esse conturbado período de governo ou a de convocação de eleições diretas para já.  Se for o caso de remendar a Constituição de 1988 para convocar eleições antecipadas, então que lutemos por zerar todo o jogo e chamemos eleições gerais. Voto revigora democracias, legitima agendas. Campanhas animam os povos mais deprimidos. O Brasil não caiu em precipício algum. Há salvação desde que não abandonemos os trilhos da Democracia. Vamos em frente e solfejando os Beatles: All We Need Is Love!

Do site Poder 360

domingo, 21 de maio de 2017

O Golpe Está Sem Rumo e Emparedado

Marcelo Zero, no Brasil 247

21 de Maio de 2017

O golpe está sem plano B. Não planeja mais nada. É jocoso ler na internet e alhures sofisticadas teorias da conspiração tentando explicar porque a Globo rifou Temer, porque ele se tornou inútil, quais os interesses que estão sendo atendidos com essa nova fase, etc.

Ora, não há explicação racional para isso. Nada disso foi antecipado em sofisticadas análises da teoria dos jogos. O que há hoje é apenas perplexidade, caos e anomia. Ninguém se entende. Há um "bate cabeça" nas corjas, apodadas carinhosamente de "elites", que se apossaram do país.

Não há consenso sobre o que fazer com Temer, o funcionário em exercício do golpe e do capital. Dar-lhe sursis até 2018? Demiti-lo? Colocar quem, em seu posto?

A Globo, por enquanto, quer demiti-lo. FHC, Folha e vários outros querem que ele continue. O PSDB ameaçou abandonar a nau putrefata, mas depois recuou. No fundo, ninguém, entre eles, sabe bem o que fazer e como fazer.

O problema maior está em quem botar no lugar. Em tese, seria simples. Se faria uma eleição indireta e se colocaria no Planalto um cidadão acima de quaisquer suspeitas, que tivesse aceitação popular ampla. Na prática, porém, isso é virtualmente impossível.

Por quê? Ora, porque o processo golpista e protofascista que se apossou do Brasil destruiu o sistema de representação e toda a classe política. Jobim, por exemplo, é do conselho da BTG/Pactual, banco investigado na Lava Jato. Meirelles, que asseguraria a continuidade das reformas, foi do conselho da JBS. Mesmo que se achasse um sujeito absolutamente ilibado, que não estivesse direta ou indiretamente sob investigação, a população não aceitaria que ele fosse eleito presidente indiretamente por um Congresso cuja credibilidade está abaixo de zero e que votou o impeachment sem crime de responsabilidade a mando de Eduardo Cunha e na base da propina.

Se essa for a aposta, ela seria de alto risco e tenderia a inviabilizar a aprovação das "reformas" desumanas, razão última do golpe. O "plano B" do golpe foi inviabilizado pelo próprio golpe.

Ironicamente, há pouco mais de um ano, tínhamos uma pessoa ungida pelas urnas e de fato pessoalmente ilibada a nos conduzir. A pessoa que afastou toda diretoria corrupta da Petrobras. Lembram? Tão honesta que tiveram de inventar um novo "crime", a pedalada fiscal, para poder retirá-la do cargo. Lembram?

Pois é. Na ânsia cega de varrer o PT e seu projeto socialmente progressista, os golpistas e a Lava Jato partidarizada varreram não só a presidenta honesta, mas a legitimidade do sistema de representação. Após as revelações assombrosas de Sérgio Machado, ficou claríssimo, para todos, que a presidenta honesta seria substituída por uma súcia de escroques da pior espécie. Mesmo assim, revolveram apostar no golpe a na "solução Temer". Precisavam de alguém para impor goela abaixo da população as "reformas" e o projeto ultraneoliberal.

Agora, a Globo, que apostou tudo no golpe e que aposta tudo na destruição da única liderança popular legítima do Brasil, Lula, se queixa de que "não há lideranças políticas no país" para substituir Temer. Juro, ouvi isso dos principais comentaristas da rede num programa de rádio.

Claro que não há. Praticamente toda a mídia oligopolizada do Brasil, uma estrutura herdada da ditadura militar, se empenhou na irresponsável criminalização da política no Brasil. Em aliança com procuradores messiânicos e ignorantes e em nome da destruição do PT, criminalizaram até as doações legais de campanha. Como contra Lula e Dilma não há provas de contas no exterior, gravações, filmagens de mochilas com dinheiro etc., tiveram de criminalizar até mesmo o que é legal. No fundo, criminalizaram as eleições e o voto. E agora se queixam? Patético.

O pior é que, agora, para não reconhecer o erro monumental, estúpido, cretino que cometeram, e para continuar na sua campanha para criminalizar Lula e o PT, adotam explicitamente a tese de que "ninguém presta" de que "é tudo farinha do mesmo saco". Ou seja, adotam explicitamente a tese de que a política é algo criminoso, o que tende a impedir soluções pacíficas e democráticas para a crise política, institucional e econômica em que afundaram o Brasil. Assim, aprofundam a crise. Destroem o país e suas instituições.

Dessa maneira, o golpe se emparedou. Está sem opções claras e viáveis. Quaisquer movimentos, ou a ausência de novos movimentos (manter Temer), são arriscadíssimos.

A criminalização da política e crise institucional no sistema de representação chegou a tal ponto que não só se perdeu a governabilidade como a previsibilidade. O consórcio golpista achava que manteria o controle de todo esse processo. Se enganaram também nesse ponto. Não controlam mais nada. Esses processos messiânicos e protofascistas, uma vez deflagrados, são irracionais e incontroláveis. São como a caixa de Pandora.

Na realidade, os rumos do país não são mais ditados por ações racionais feitas pelo capital, a mídia ou quem quer que seja. Caímos na imprevisibilidade a na anomia.

Nessa situação de caos imprevisível, quem dá as cartas são os interesses mesquinhos e pessoais dos piores escroques do país. Quem iniciou o golpe foi Eduardo Cunha, com o intuito vão de se salvar. Quem agora emparedou o golpe foi Joesley, em ação individual, que buscou, e conseguiu (!), a sua sobrevivência. Assim, por causa dessa destruição da política e das instituições, o destino do Brasil fica ao sabor dos interesses particulares dos piores gângsteres da nação.

O golpismo e a Lava Jato que se nutre de vazamentos ilegais e escândalos instauraram o império da escrotidão. Os diretores corruptos da Petrobras estão todo livres em suas mansões e Joesley desfruta de seu apartamento na Quinta Avenida. O sistema da Lava Jato ideológica e desgovernada é o da escrotidão premiada. Praticamente nada do que os delatores dizem, para se salvar, é confiável, a não ser quando há provas concretas, como no caso de Temer e Aécio. Mas são essas narrativas que governam o país. Falta pouco, muito pouco, para que outro delator em desespero aprofunde a linha sinalizada por Joesley, a da corrupção nas procuradorias e no judiciário, que até agora não divulgou os nomes dos juízes delatados. Nesse caso, não sobrará nenhum poder, nenhuma instituição em pé. Vão fazer o quê?

Com o golpe emparedado, sem rumo claro, há duas opções:

a) Continuar o golpe com a instituição definitiva de um Estado de Exceção ou com uma ruptura democrática escancarada.

b) Realizar eleições diretas.

A corja patocrática não admitirá eleições diretas. Não por só medo do Lula, mas, sobretudo, por medo de inviabilizar definitivamente as reformas ultraneoliberais. O golpe foi dado para isso. Perder as reformas é impensável. Qualquer candidato que vá para as eleições diretas com esse programa altamente impopular não se elegerá. Sem golpe não há reformas. Por isso, o golpe tem de continuar de qualquer maneira. Com Temer ou sem Temer.

Com ou sem Temer (provavelmente com Meirelles), o golpe só chegará a 2018 com muita repressão. Ou mesmo com uma ruptura democrática escancarada, um regime tutelado pelo judiciário e pelos militares. Como o sistema de representação foi destruído e política foi definitivamente criminalizada, essa é uma opção viável.

Resta a opção civilizada e pacífica das eleições diretas. Tudo dependerá das pressões das ruas. Se for forte e contínua, a democracia vencerá. Se não for, pobre Brasil. Pobre de nós. Pobre de todos que não têm apartamento na Quinta Avenida.

domingo, 14 de maio de 2017

Feliz dia das mães

"Ser Mãe é assumir de Deus o dom da criação, da doação e do amor incondicional. Ser mãe é encarnar a divindade na Terra."

Barbosa Filho

sábado, 13 de maio de 2017

A esfinge midiática que devorou o juiz Sérgio Moro

​Por Yuri Carajelescov, mestre e doutor em Direito pela USP.
No site Justificando

O depoimento prestado pelo ex-presidente Lula ao juiz Sérgio Moro trouxe à tona um debate propositalmente adormecido acerca da relação entre a mídia e o exercício do poder punitivo estatal. Lula lembrou que Moro defendeu em artigo doutrinário sobre a operação “mãos limpas” (mani pulite) que a imprensa deve ser politicamente instrumentalizada pela justiça para atingir seus objetivos persecutórios, sem o qual seria impossível combater a criminalidade organizada.

performance dos atores jurídicos envolvidos na operação Lava Jato, o clímax e anticlímax de um enredo novelesco, os sobressaltos e as reviravoltas transmitidos em tempo real pelas tevês a reter a atenção de um público ávido por justiça a qualquer preço, ou algo assim, indica que a teoria defendida pelo magistrado pode ter encontrado alguma correspondência na prática. É preciso, no entanto, investigar o impacto dessa relação em um sistema que sustenta proteger direitos e garantias fundamentais, além da natureza, extensão e morfologia dessa relação para se saber quem efetivamente é meio e quem é comando. 

Na sociedade de massa e da informação convém ter presente que a mídia atua como árbitro do acesso à existência social e política, validando determinadas posições e desqualificando outras, em larga medida fornecendo “a imagem do mundo ao homem comum” (BERTRAND). 

Organizada em conglomerados empresariais (e familiares no caso brasileiro), seu objetivo central é a manutenção da estrutura dos processos de acumulação capitalista por meio da divisão social do trabalho. Logo, a mídia não se apresenta como um elemento imparcial nesse processo de apuração de condutas e imputações, como deveria ser o órgão estatal de solução de conflitos, já que apoiar ou rechaçar determinados agentes políticos obedece a uma lógica diversa da que deveria nortear a ação estatal fundada na noção do bem comum.

Por mais que se queira, instrumentalizar essa poderosa máquina construtora do aparato simbólico para atingir determinadas finalidades não parece ser algo trivial. Atiçar a fera é bulir com o imponderável, pois o único comando que o mastodonte obedece é o que atende ao escopo de sua existência, ou seja, a manutenção do status quo e do ecossistema que alimenta o seu poder.

Moro que de bobo não tem nada já se deu conta disso, prisioneiro que de bom grado se tornou desse enredo. Se pretendia tosquiar com a doutrina colada dos italianos da mani pulite, certo é que voltou tosquiado pela força dos fatos, jamais se opondo aos termos do acordo.

Em um mundo de imagens e de reality show, muitas vezes a fama e o reconhecimento social são mais importantes que a riqueza material. E no fim das contas, posar de herói é sempre melhor do que de vilão, mesmo que a contrapartida envolva o despojar-se do munus de julgador e a auto-conversão em operador autômato de discursos preestabelecidos segundo interesses hegemônicos.

Entabula-se, então, uma relação real e distante da idealizada inicialmente entre juiz e mídia. Esta lhe concede o efeito celebridade e uma popularidade efêmera. Aquele o ajuste de contas com os desviantes, os inimigos públicos selecionados pelos meios de comunicação, tudo sob a chancela do poder estatal que deveria ser imparcial e tributário do devido processo legal, o qual, assim como os demais direitos e garantias fundamentais, serve apenas como referência retórica.

No fundo, trata-se de uma privatização ad hoc da função jurisdicional. Os julgamentos não são apenas na, mas, sobretudo pela mídia. O juiz que parece todo poderoso, na verdade, é fraco e impotente, teleguiado por interesses que pouco tem a ver com as coisas da justiça assentada em um sistema de normas escalonadas preestabelecidas.

Ao final de seu depoimento, Lula disse que se Moro não o condenasse seria devorado por aqueles que hoje o apoiam. Ao fazê-lo, o ex-presidente expôs as vísceras de um sistema carcomido que nada tem a ver com a Justiça, exceto o mise en scène. De toda aquela pantomima, o que se viu ao final foi um juiz guarnecido por tropas, holofotes e microfones, mas acuado pelos valores elementares da civilização.

Lula cresce porque representa o povo brasileiro

Por Emir Sader, no 247

Quem não entende o fenômeno Lula, não entende o Brasil contemporâneo. Toda visão redutiva e parcial dele, não dá conta da exuberância da presença do Lula no Brasil e, com isso, não entende o país e o povo brasileiro.

Lula representa um verdadeiro enigma. Quem não decifra seu significado, é devorado por ele. Aconteceu isso com a direita e com a ultra esquerda, que o subestimaram e foram sucessivamente derrotadas por ele. Lula teria capitulado, Lula seria um cadáver político – nada disso se confirmou e quem saiu derrotado nesses enfrentamentos foram os que não compreenderam o seu significado para o país e para o povo.

Agora gente do campo da esquerda e do campo da direita tentam desqualificar o apoio que o Lula tem da população brasileira, dizendo que isso se deve a que ele é perseguido. Pobre argumento psicológico, de telenovela, como se fosse a perseguição que elevasse cada vez mais o prestígio do Lula.

Os pesquisadores que analisam as preferências do povo se deram conta que o fator fundamental que faz com que Lula cresça sempre nas pesquisas vem do que os entrevistados chamam de "saudade do Lula", isto é, a memória do que viveram durante o seu governo, o momento mais feliz das suas vidas, o momento mais virtuoso da história do Brasil. Ainda mais quando o governo surgido do golpe avança selvagemente sobre os interesses dos trabalhadores e da massa do povo, quando a autoestima dos brasileiros é jogada de novo para baixo, quando a vergonha de ser brasileiro não deixa de subir, a imagem do Lula cresce para o povo brasileiro.

Não é porque ele é perseguido, que ele cresce. Tanta gente tem sido injustamente perseguida no Brasil de hoje e nem por isso sua imagem cresce. A imagem do Lula cresce porque ele representa um projeto político que mudou - e mudou muito radicalmente para melhor – a vida dos brasileiros, a imagem do Brasil e a autoestima de todos. Quem não entende isso, não tem uma visão política do que representa o Lula hoje para os brasileiros.

Lula não é tampouco pelo que diz, mas sobretudo porque o que ele diz se assenta no que seu governo fez, no que o Brasil foi capaz de fazer sob sua condução. Ele não é um político entre outros, porque traz consigo e na memória do povo realizações que marcam a vida das pessoas. Não faltassem já todas as que seu governo trouxe, veio a transposição do rio São Francisco, recente, que atualizou a capacidade do Lula de mudar para sempre a vida das pessoas.

Diante de tudo o que Lula representa para o povo e para o Brasil, vir dizer que ele cresce nas pesquisas porque é perseguido, é tentar reduzi-lo a um papel de vítima, desconhecendo tudo o que representa para o país. Não entendem o Lula e não entendem o país.

Seria bom para eles que fosse assim, que o prestígio do Lula fosse passageiro, superficial, que terminasse como termina uma novela, os personagens desaparecem e outros os substituem. Por que gente que defende varias posições parecidas com as do Lula, gente que é perseguida como o Lula é, nem aparece nas pesquisas ou tem apoios intranscendentes? Porque Lula tem trajetória, não apenas de vida, mas de governante. Porque Lula aparece como a grande esperança do povo voltar a gozar dos seus direitos, do Brasil voltar a ter prestigio no mundo, dos brasileiros se sentirem orgulhosos do seu país, saberem que decidem os seus destinos e tem o seu destino novamente nas suas mãos.