domingo, 9 de dezembro de 2018

Campanha política com tática militar de guerra híbrida

Campanha fascista usa tática militar de “guerra híbrida

Os recursos escassos, a estética do material de divulgação e as constantes contradições de Jair Bolsonaro (PSL) e seus aliados podem levar à impressão de que a estratégia de comunicação do candidato é amadora.

Contudo, segundo o antropólogo Piero Leirner, professor da Universidade Federal de São Carlos que estuda instituições militares há quase 30 anos, a comunicação de Bolsonaro tem se valido de métodos e procedimentos bastante avançados de estratégias militares, manejados de maneira “muito inteligente, precisa, pensada”.

“Não se trata exatamente de uma campanha de propaganda; é muito mais uma estratégia de criptografia e controle de categorias, através de um conjunto de informações dissonantes”, explica Leirner.

"É parte do que tem sido chamado de ‘guerra híbrida’: um conjunto de ataques informacionais que usa instrumentos não convencionais, como as redes sociais, para fabricar operações psicológicas com grande poder ofensivo, capazes de ‘dobrar a partir de baixo’ a assimetria existente em relação ao poder constituído”.

Nesse novo paradigma político descrito por Leirner, gestado em guerras “assimétricas” como a do Vietnã —nas quais os poderes e táticas militares são muito discrepantes entre os adversários— e colocado em prática nas “primaveras” do Oriente Médio, as redes sociais têm papel central, pois “descentralizam e multiplicam as bombas semióticas”.

A cúpula bolsonarista conta com a participação de diversos membros das Forças Armadas, que tiveram contato com essas doutrinas. Reportagem da Folha mostrou que Bolsonaro é o candidato preferido da maioria dos 17 generais de quatro estrelas da corporação –o topo da hierarquia. Uma dos protagonistas do grupo de Bolsonaro é o general quatro estrelas da reserva Augusto Heleno, que chegou a ser cotado como seu vice.

Há diversos recursos de “guerra híbrida” identificáveis na campanha bolsonarista com a participação de seus eleitores: a disseminação de “fake news” e as contradições (chamadas por Bolsonaro de “caneladas”) entre as figuras de proa da campanha são alguns deles.

As divergências entre o presidenciável e o vice, general Hamilton Mourão (PRTB), sobre o 13º salário, e também entre ele e o economista Paulo Guedes sobre a criação de imposto aos moldes da CPMF, são ilustrativas desse vaivém que, ao fim, gera dividendos políticos para Bolsonaro.

“Esses movimentos criam um ambiente de dissonância cognitiva: as pessoas, as instituições e a imprensa ficam completamente desnorteados. Mas, no fim das contas, Bolsonaro reaparece como elemento de restauração da ordem, com discurso que apela a valores universais e etéreos: força, religião, família, hierarquia”, analisa Leirner.

Nesse ambiente de dissonância, a troca de informações passa a ser filtrada pelo critério da confiança. As pessoas confiam naqueles que elas conhecem. Nesse universo, então, as pessoas funcionam como “estações de repetição”: fazem circular as informações em diversas redes de pessoas conhecidas, liberando, assim, o próprio Bolsonaro de produzir conteúdo.

“Ele aparece só no momento seguinte, transportando seu carisma diretamente para as pessoas que realizaram o trabalho de repetição. As pessoas ficam com uma sensação de empoderamento, quebra-se a hierarquia. O resultado é a construção da ideia de um candidato humilde, que enfrenta os poderosos, que é ‘antissistema’”, diz o antropólogo.

Esses poderosos contra os quais se voltam Bolsonaro e seus seguidores são justamente os agentes que tradicionalmente transmitem as informações de maneira vertical, como políticos, imprensa, instituições, que são lançados ao descrédito.

Concorrentes como o tucano Geraldo Alckmin e o petista Fernando Haddad, então, sofrem para atingir o eleitorado com ferramentas clássicas de propaganda. Torna-se difícil estabelecer um laço com os eleitores, especialmente com aqueles que já participam da rede bolsonarista.

“O trabalho dos marqueteiros dos outros partidos ficou a anos luz de distância. A tática de Alckmin foi um incrível laboratório: quanto mais atacou, mas aumentou a resistência de Bolsonaro. E isso com ele lá no hospital.  Os ataques ao Bolsonaro foram então encarados como ataques a essas ‘estações de repetição’, e sua mobilidade tornou eles inócuos”, afirma Leirner.

Se está claro que essas “fake news” geram desinformação e desorientação, o antropólogo acredita que ainda não se sabe exatamente o que se pode fazer para combatê-las. Nestas eleições, o Tribunal Superior Eleitoral tem sido pressionado para tomar alguma providência em relação a elas, mas tem tido dificuldades em fornecer respostas.

“Se uma fake news é punida, outras são geradas e estações novas entram na artilharia. No fim o que vai se fazer? Punir todas as redes? Prender milhões de pessoas? O que a gente vai ver é se as instituições vão continuar assistindo sua própria implosão.”

Para Leirner, por fim, a proliferação de notícias falsas colabora para o deslocamento de poder dentro de instituições centrais à democracia, como a Justiça e as Forças Armadas.

“Hoje vemos  setores do Estado, especialmente do judiciário, entrando em modo invasivo, cada um se autorizando a tentar estabelecer uma espécie de hegemonia própria”, diz.

Para ele, a especificidade da instituição militar, aquela que tem um poder que no limite só ela mesmo controla, deveria motivar reflexões sobre o perigo de misturá-la à política.

“O que me pergunto é se o pessoal da ativa está preparado para perceber que um pedaço desse ‘caos’ está saindo de uma força política que se juntou com alguns dos seus ex-quadros (…) A instituição militar diz: ‘obedecemos a Constituição e nos autocontemos’. Invadir esse poder com a ‘política’ não é boa ideia”, diz Leirner, concluindo com reflexão sobre a conjuntura.

“Parece-me que estamos vivendo um Estado bipolar: resta saber como, depois da fase eufórica, vamos encarar a fase maníaco-depressiva”.

Da Folha de São Paulo

Coletes Amarelos" na França: a revolução não será televisionada!

O sistema cria sua própria oposição

Cria sua própria oposição para reorganizar o sistema em um outro nível. Dessa vez o retorno nostálgico do nacionalismo combinado com um Estado fascista e policial, dando voz e representatividade a uma massa frustrada e ressentida sob os escombros do Estado de Direito e da social-democracia.

Com os “Coletes Amarelos” assistimos a uma nova etapa: troca e reorganização de regimes cooptando a frustração e o ressentimento de massas vitimadas pela aventura da globalização e financeirização que destruíram direitos e garantias sociais. Agora, coopta-se essa raiva como um movimento antissistema. É o paradoxo da manutenção do sistema criando a própria oposição que simula querer destruir o sistema.


"Coletes Amarelos" na França: a revolução não será televisionada!

Até aqui a grande mídia passa batida para “o déjà vu” dos protestos dos “coletes amarelos” na França: em 2013 as chamadas “Jornadas de Junho” no Brasil foram narradas da mesma maneira como hoje noticiam os protestos franceses – “espontâneos”, “apartidários” e que “começam de forma pacífica, mas que acabam tendo atos de vandalismo...”. Também como em 2013, surgem analistas que veem “o novo” na Política ou “quebra do monopólio da narrativa midiática”. Aqui no Brasil vimos no que deram as Revoluções Populares Híbridas. Na Europa estão sincronicamente conectadas com o tour de Steve Bannon (ex-assessor da campanha de Trump) pelo continente para unificar a direita num “movimento internacional de nacionalistas”. Os “coletes amarelos” são icônicos e as câmeras os amam, saturando de significados suas fotografias e vídeos. A revolução não será televisionada:  a mídia não está relatando o que as pessoas fazem; relatam apenas o que as pessoas fazem para obter a atenção da mídia para o Capitalismo dar um novo salto – o populismo de direita.

“O protesto dos coletes amarelos, que surgiu de maneira espontânea nas redes sociais contra o alto preço dos combustíveis, começou de forma pacífica, mas acabou tendo atos de vandalismo e violência...”. Variações dessa frase estão presentes em matérias jornalísticas na TV, portais da Internet e jornais, nos relatos sobre as manifestações dos “coletes amarelos” na França - movimento de protesto contra o imposto sobre o combustível, taxa ecológica defendida pelo presidente francês Emmanuel Macron.

Caro leitor, esse excerto narrativo, recorrente na grande mídia ao noticiar a atual onda de protestos na França, não lembra nada? Será que o leitor não tem uma estranha sensação de déjà vu diante das fotos dos chamados coletes amarelos, em poses black bloc, mascarados e desafiadores?  

São imagens e relatos noticiosos que imediatamente nos fazem lembrar as “jornadas de junho” de 2013 no Brasil. Claro, o cenário é bem diferente: das ruas e avenidas brasileiras para as emblemáticas ruas de Paris.

“Flash mobs” ou Guerra Híbrida?


Um movimento com marca icônica (“coletes amarelos”), surgido de forma “espontânea”, convocado nas redes sociais como fosse flash mobs, supostamente apartidário, pacífico. Mas que, repentinamente, saltam não se sabe de onde black blocs (dessa vez com o doce sabor retro dos protestos estudantis de maio de 1968 na França) que quebram, picham, incendeiam, apanham da polícia e fazem poses desafiadoras para a primeira câmera (celulares não valem!) de um cinegrafista de grande mídia mais próximo. 

Brasil, 2013; França, 2018 - o mesmo script midiático

Os protestos que explodem nesse momento na França têm todos os elementos daquilo que é denominado Revolução Popular Híbrida (RPH), parte da estratégia da Guerra Híbrida tal como definida pelo pesquisador Andre Korybko, Conselheiro do Institute for Strategic Studies e jornalista da Sputnik News:

As Guerras Híbridas são conflitos identitários provocados por agentes externos, que exploram diferenças históricas, étnicas, religiosas, socioeconômicas e geográficas em países de importância geopolítica por meio da transição gradual das revoluções coloridas para a guerra não convencional, a fim de desestabilizar, controlar ou influenciar projetos de infraestrutura multipolares por meio de enfraquecimento do regime, troca do regime ou reorganização do regime ( “Agentes externos provocaram uma guerra híbrida no Brasil, diz escritor”, Brasil de Fatoclique aqui).


Para ele, a dinâmica das RPH é provocar um “caos administrado” para criar grandes movimentos de protesto que podem então ser cooptados e dirigidos para determinados fins políticos.

Até aqui, de um lado a grande mídia e, do outro, a mídia alternativa, não conseguiram ou não se interessaram em entender como os “coletes amarelos” se articulam com a geopolítica do Departamento de Estado norte-americano. Inclusive, muitas análises mais apressadas começam a incorrer nas mesmas avaliações ingênuas idênticas a que cercaram as “jornadas de Junho no Brasil: uma “rebelião peculiar”, “movimento espontâneo”, “rebelião contra Macron que favorece apenas os mais ricos” e assim por diante sempre dentro do raciocínio maniqueísta – a luta do Bem contra o Mal.

Assim como em 2013, começam as avaliações apressadas de que se trata da “insatisfação da população periférica” cujos partidos, sindicatos ou canais institucionais ou de representação política não conseguiriam dar expressão. E toca a se insinuar que há por trás de tudo o chamado “novo” na Política.

A verdade é que em todas essas manifestações há um, por assim dizer, doce sabor de “anarco-capitalismo”: movimentos “espontâneos”, sem lideranças da carcomida Política e sindicatos, sempre contra impostos e o Estado que insiste em incomodar a liberdades das ambições individuais.

E a grande mídia parece estar à espera desses protestos, sempre com um scriptpronto.



Protestos iconoclatas


Olhando o conjunto dos vídeos e fotografias dos protestos franceses, é inegável que em todas elas há um quê de fotogenia e telegenia – parecem escolhidas à dedo, saturadas de significados (o black bloc cuja máscara é própria a bandeira francesa, o manifestante parado solitário em frente ao Arco do Triunfo pichado, mulheres se abraçando desesperadas – uma delas com uma pequena bandeira nacional tapando a boca – diante do avanço da polícia de choque etc.), a impressão de violência coreografada lembrando as investidas da gangue de Alex no filme Laranja Mecânica, poses desafiadoras de manifestantes tendo ao fundo chamas e grossos rolos de fumaça negra e muitos personagens em contra luz, perfis humanos colocado em frente a incêndios.

Como sempre, toda RPH tem que ser icônica: Revolução Verde (Irã), Revolução Laranja (Ucrânia), Primavera Árabe (Egito, Tunísia, Síria, Líbia), Umbrella Revolution (Hong Kong). E, claro, transformar-se em verbetes da Wikipedia: “Yellow Vests Movement” ou “Gilets Jaune Protests”, “O Movimento dos Coletes Amarelos” etc. Uma autêntica e profissional estratégia de branding.

E ainda análises, como a da socióloga Angelina Peralva, veem nesses movimentos um fenômeno de “quebra do monopólio da mídia institucional sobre as narrativas políticas...” (clique aqui). Pelo contrário: certamente a revolução jamais será televisionada! Uma verdadeira revolução não é fotogênica ou telegênica – será irruptiva o suficiente para câmeras e cinegrafistas fugirem sob as ordens de uma grande mídia em pânico.

Muito além dos ícones


É sincrônico que Steve Bannon, ex-assessor da campanha vitoriosa do presidente Trump e atual líder de um projeto para “unificar a direita” em toda Europa, estivesse na França no primeiro semestre, quando foi o astro da abertura do congresso do partido francês de direita Frente Nacional. Lá, Bannon defendeu um “movimento internacional de nacionalistas” e descreveu o “Estado-Nação como uma joia que deve ser polida, desejada e cuidada”. E completou: “estamos cheios de globalistas!”.

Steve Bannon em campanha européia pela unificação da direita anti-globalista

Por que voltar-se contra Macron? Afinal, ele não é o queridinho dos defensores da mão de ferro das medidas neoliberais do “Estado Mínimo”? E muito menos pretende, como ousaram os governos petistas no Brasil, projetos de infraestrutura multipolares, desafiando o eixo Norte/Sul e a geopolítica (petrolífera e financeira) norte-americana com os BRICS.

O problema é que desde a falência em 2008 do banco de investimentos Lehman Brothers que desencadeou a maior crise do capitalismo desde 1929 numa reação em cadeia que fez a Zona do Euro derreter, o pacto liberal social-democrata (que até incorporou a esquerda) começou a ruir, principalmente na Europa Ocidental.

Depois de três décadas de destruição do Estado Social e de todos os mecanismos que garantiam a possibilidade de ascensão social, destruição sistemática dos direitos sociais, das garantias em Saúde e Educação (tudo em nome de supostos direitos individuais do livre mercado, competição e empreendedorismo), o que restou foi um rastro de isolamento das pessoas, demonização da política e de instituições - como sindicatos e partidos que davam voz a muitos setores da sociedade.

O novo populismo de direita, representado pela vitória de Trump nos EUA e a cruzada anti-globalista e nacionalista de Steve Bannon posam de anti-stablishment ao querer representar essa frustração generalizada dos excluídos da globalização - as camadas pobres e médias da população. 

Agora, mais "coletes amarelos se espalham pela Europa: Suécia, Bélgica, Holanda, Alemanha. Com pautas de extrema-direita como, por exemplo, protestos contra o acordo de migração anunciado pela ONU - clique aqui.

Mas essa aparência antissistêmica é apenas uma simulação, estratégia dissuasiva para o capitalismo em crise dar um novo salto: depois de décadas de globalização e políticas neoliberais de pilhagem (da banca financeira) e desmontagem do Estado de Bem estar Social, a engenharia social volta-se para as estratégias de criação da RPH: destruir o pacto liberal que impulsionou a Globalização para, nas palavras de Korybko citadas acima, trocar ou reorganizar o regime.

"Coletes Amarelos" com pauta de extrema-direita se espalham pela Europa

O sistema cria sua própria oposição


Como o diretor Gus Van Sant mostrou magistralmente no filme Terra Prometida (Promised Land, 2015), o Capitalismo sabe jogar dos dois lados: situação e oposição. Como sempre na História recente, a direita sempre se antecipa à esquerda, simulando uma oposição a partir da própria frustração que o sistema gerou.

Cria sua própria oposição para reorganizar o sistema em um outro nível. Dessa vez o retorno nostálgico do nacionalismo combinado com um Estado fascista e policial, dando voz e representatividade a uma massa frustrada e ressentida sob os escombros do Estado de Direito e da social-democracia.

Assustada, a esquerda (que fazia parte do velho pacto da democracia representativa) assiste à irrupção das RPHs como a dos “coletes amarelos”, cuja explosão de revolta passa ao largo dos canais institucionais de representação, como, por exemplo, as greves lideradas por sindicatos. 

Se no Brasil as Jornadas de Junho de 2013 abriram o caminho para o impeachment de Dilma Rousseff e à chegada da extrema direita ao poder com Jair Bolsonaro, na França um porta voz dos “gilets jaunes”, Christophe Chalençon, declarou à rádio Europe 1 que ele veria “com gosto” um “general de Villers” (Pierre Villers, general que se afastou das Forças Armadas em 2017 após criticar Macron) como chefe de governo.

Um gigantesco “Efeito Heisenberg”


Até aqui as RPHs foram criadas nas diversas “Primaveras Coloridas” que rodaram o mundo como um laboratório de pesquisas antropológicas, sociológicas e psicométricas que conseguiram precisar os pontos fracos das sociedades para perturbar o status quo e manipular desestabilizações – produzir o maior efeito com o mínimo esforço.

Com os “Coletes Amarelos” assistimos a uma nova etapa: troca e reorganização de regimes cooptando a frustração e o ressentimento de massas vitimadas pela aventura da globalização e financeirização que destruíram direitos e garantias sociais. Agora, coopta-se essa raiva como um movimento antissistema. É o paradoxo da manutenção do sistema criando a própria oposição que simula querer destruir o sistema.

Daí porque as câmeras de TV parecerem amar os coletes amarelos e como estes coreografam tão bem diante delas. Não tenham dúvida que uma revolução real jamais será televisionada. Por isso, tudo que assistimos nada mais é do que um gigantesco “Efeito Heisenberg” (sobre esse conceito clique aqui): a mídia não está relatando o que as pessoas fazem; relatam apenas o que as pessoas fazem para obter a atenção da mídia. 

Do blog cinegnose, do professor Wilson Ferreira

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

mundo da pós-verdade, e da fake News.

O mundo da pós-verdade, e da fake News.

"A realidade tem que ser destruída do ponto de vista simbólico. Eles cultuam ignorância. Por exemplo, para destruir os direitos (trabalhistas) eles vão ter que convencer que isso é bom, mas isso é ruim. E como você convence?  Com mentiras, perseguição, imaginação"

Sérgio Amadeu, membro do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI).

Amadeu explicou o conceito de Guerra Híbrida, estratégia que tem sido muito utilizada principalmente pelos Estados Unidos para desestabilizar governos democraticamente eleitos. As redes digitais, afirma, têm tomado papel importante nas Guerras Híbridas combinando sabotagem, criação de baixa moral na sociedade adversária e inversão de valores no intuito de desmoralizar o "inimigo". As fake news fariam parte das táticas de guerra híbrida.

Neste sentido, o professor apontou que tanto a campanha de Jair Bolsonaro (PSL) quanto seu futuro governo utilizaram e vão continuar utilizando estas táticas. Trabalhar com factóides, ou seja, informações bomba que ficam se repetindo para atrair a opinião pública, é a saída para um governo que não tem propostas coerentes, explicou.

Em relação às fake news, Amadeu afirma que atualmente o termo está comprometido. Muitas das fake news surgiram baseadas em situações reais, o que deixa o combate à desinformação ainda mais complexo. "Você combina coisas que existem, distorce e exagera, gerando um efeito de revolta enorme.

Brasil 247

Brasil canalha e de cristandade falsa e mentirosa.

Brasil canalha e de cristandade falsa e mentirosa.

"Os números oficiais do IBGE, dando conta do aumento da pobreza e da pobreza extrema no país não mereceram neles, sequer, uma chamada de capa. Ou, para ser rigoroso, apenas uma linha – “somada à alta da pobreza extrema” – que orna uma pequena nota da Folha, destacando a carência nos serviços básicos.

Nem mesmo com o relatório da Síntese de Indicadores Sociais, oficial, produzida pelo IBGE, revelando dados dramáticos – ou, como se dizia no jargão jornalístico importado dos EUA, “histórias de interesse humano” – como o fato de metade das crianças e adolescentes brasileiros sobreviverem com renda inferior a R$ 400 mensais foi capaz de comover os editores, certamente porque não comoveriam seus leitores.

É curioso que tirar 40 milhões da linha de pobreza em dez anos  é fruto de um descalabro de política econômica, mas aumentar em 2 milhões o número de pobres em apenas um ano é visto como uma “recuperação econômica” , ainda que “tímida”.

A invisibilidade dos pobres na mídia e no olhar das elites dirigentes – exceto quando viram índices de violência ou mulambos dormindo nas calçadas ricas, buscando esmolas e restos – acaba, por isso, sendo mais expressiva que as tabelas e números do IBGE.

Acaba sendo um retrato mais aterrorizante de um país que é ensinado a ver a pobreza como um inimigo e não um potencial que é desperdiçado e a uma indignidade a que submetemos seres humanos.

E onde a indiferença passa a ser o estado natural: o médico que não se importa com os desvalidos, o economista que se lixa para o trabalhador, o engenheiro e arquiteto que nos raros projetos de habitação projeta cubículos, o jornalismo que considera “celebridades” e “fait divers” mais importantes que a realidade com que tropeça nas ruas.

Ah, sim, a propósito: em dois sites, apenas, o aumento e o agravamento da pobreza no Brasil são manchete: A BBC, inglesa, e a Deutsche Welle, alemã.

Só mesmo lá para a dor da gente sair no jornal.

Fernando Brito

A família "mi mi mi"

A família "mi mi mi"

"Foco de crises na transição de governo, a disputa de poder que os filhos de Jair Bolsonaro travam nos bastidores e na própria mídia se anuncia como problema para o novo governo; Carlos era o que mais preocupava com sua mania de perseguição paranoica e brigas seguidas; agora, Flávio entrou no centro da crise, com a descoberta de R$ 1,2 milhão na conta de seu ex-assessor; Eduardo gera crises seguidas nas relações internacionais e na bancada do PSL na Câmara dos Deputados."

Realidade e aparência

É de bom conselho não tomar a realidade pela sua aparência, nem confundir os movimentos tectônicos com as marolas que se quebram na praia.

Se o pessimismo pode levar ao niilismo inconsequente e irresponsável, o otimismo panglossiano é o caminho mais curto para o suicídio político.

Tampouco recomenda-se menosprezar a ameaça do adversário no intuito de torná-la menos perigosa, porque a expectativa do melhor não é um determinismo histórico, porque não há vitórias políticas preestabelecidas (nem necessariamente duradouras), e porque o pior é sempre possível.

O bolsonarismo (seja lá o que for) é uma ameaça que caminha a passos largos em nossa direção. Aguarda-o um espaço vazio, devastado, pronto para ser ocupado.

Não há como desconhecer nem a clareza de seu discurso nem a reiterada decisão de levá-lo a cabo. Muito menos ignorar o significado das forças que o alimentam. A soma patológica de obsessão ideológica e descolamento da realidade afasta a grei autoritária de qualquer concessão à racionalidade.

O governo em instalação, mas já em serviço, tem plenas condições de levar a cabo as ameaças com as quais o capitão e seus sequazes de maior ou menor coturno nos acenam desde a campanha eleitoral.

O astrólogo Olavo de Carvalho, o rasputin de Richmond, é o que é – ou seja, não é filósofo nem construiu qualquer ordem de pensamento lógico digno de consideração – mas é o guru do capitão presidente e ambos pensam e agem em sintonia, quando está em jogo a opção entre o atraso, de qualquer ponto de vista, e o progresso.

As linhas gerais do governo que inspira foram ditadas em recente entrevista à jornalista Júlia Zaremba (Folha de SP, 28/11/2018): 1) economia de "livre mercado"; 2) império da moral judaico-cristã; 3) lei e ordem e 4) "democracia" plebiscitaria, contornando o Congresso e valendo-se de instrumentos da democracia participativa para o fortalecimento do projeto de uma virtual ditadura.

A extinção do Ministério do Trabalho (criado por Vargas em 1930) é simbólica, como o desprezo pelas áreas de Educação e Cultura, a repressão ao indigenismo, o cerceamento à defesa do meio ambiente, aos direitos sociais e identitários. O desprezo pela escola pública, que possibilita a ascensão social dos mais pobres.

Por fim e como coroamento: o desprezo pela soberania nacional.

O guru, os filhos e o capitão – exatamente nesta ordem –, mais do que a desmontagem do que se conhece hoje como sistema democrático (com todas as suas conhecidas mazelas sociais), prometem a 'reinvenção' do Brasil e, de quebra, se dermos trégua, a 'reinvenção' dos brasileiros, expelindo, se possível os dissidentes para Cuba ou Venezuela..

O governo em instalação – mas já em serviço – vicejará em terreno o mais favorável possível para a instauração de um Estado de exceção permanente, condição indispensável para uma governança autoritária que não relutará diante de qualquer oportunidade de, dando um passo à frente, descambar para o totalitarismo.

Emergindo da consagração eleitoral, ancorado no apoio das grandes massas, o novo governo terá em suas mãos um país com instituições políticas despedaçadas ou desmoralizadas, como os poderes judiciário e legislativo de nossos dias, e uma democracia representativa sem partidos, facilmente ordenada pela manipulação do que se convencionou batizar de "redes sociais" (WhatsApp, Twitter, Facebook, Instagram...) e, com elas, a indústria das fake news, um iceberg do qual só conhecemos a ponta exposta – e já mostrou do que é capaz no Brexit, e nas eleições de Trump e do capitão.

Trata-se, em suma, de convite quase irresistível à aventura institucional, tanto mais irresistível e provável enquanto esse governo dispuser, como conta agora, com apoio popular, apoio dos grandes meios de comunicação e a sustentação militar óbvia e ostensiva.

Mais do que um governo presidido por um militar de lamentável currículo, esse governo, será, de fato, a primeira experiência de implantação no Brasil, pela via eleitoral, de um governo militar, pois essa é sua natureza; atestam-nos sua origem, seu comando orgânico e ideológico, sua composição.
(...)

Resta ver como se comportarão – pois contradições virão à tona – as facções que, após garantirem a eleição, garantem hoje o governo e sua estabilidade, disputam seu rumo político-ideológico enquanto ditam e comandam sua estrutura, a saber, os militares e as tradicionais forças da repressão (as polícias civis e militares e agora o Ministério Publico e setores destacados do judiciário), o chamado mercado (compreendendo mesmo o setor produtivo), as corporações e os interesses geopolíticos dos EUA, sejam econômicos, sejam puramente estratégico-militares.

As dúvidas devem ser muitas porque não sabemos até quando permanecerão silentes e omissos aqueles setores de dentro e fora da caserna comprometidos com as teses (militares) identificadas com a defesa da economia nacional, da soberania e da independência, claramente postas em questão, quando a doutrina do auto-respeito é substituída pela proto-ideologia da sabujice (...)

A História dirá, e talvez não demore muito, como se comporão os diversos grupos que entre si dividem o poder de fato.

Há lideranças militares em postos-chave que insistem a/na preeminência do interesse nacional, como há as que se dizem convencidas da inevitabilidade de nossa vinculação à geopolítica estadunidense.

Para tais setores o conflito EUA x China-Rússia é um dado objetivo que nos deixa sem alternativa senão dela participar representando os interesses do grande irmão do Norte no Atlântico Sul, controlando, em seu nome, a América do Sul e a África Ocidental.

Paralelamente, movendo-se entre os comandantes, atuam com desenvoltura e loquacidade o capitão e seu entrecho familiar, para quem nosso único objetivo é atender, não exatamente aos interesses dos EUA, mas à política de Trump, revivendo entre nós a "relação carnal" proposta à Argentina pelo lamentável presidente Menem. Esta tragédia está nas falas do guru, do capitão-presidente, dos filhos parlamentares e do diplomata que nomeou para cuidar das relações exteriores, conhecido por seus colegas como "pastor tarja preta".

Não nos aguardam nem a serenidade dos lagos suíços nem a 'normalidade' sonhada pelos simplórios de sempre, mas a agudização dos conflitos que a esquerda não deve temer, pois é a promessa de frutos após o rotundo fracasso da conciliação de classes intentada pelos nossos governos e a renúncia dos partidos de centro-esquerda à luta ideológica.

Por Roberto Amaral
Brasil 247