sábado, 23 de setembro de 2017

Depressão e suicídio no neoliberalismo

Quando Margareth Thatcher disse que não se pode definir nada nem ninguém como sociedade, que só há indivíduos e empresas que lutam por seu proveito, para o sucesso econômico competitivo, declarou algo com enorme potência destrutiva. O neoliberalismo, a meu ver, produz um efeito de destruição radical do humano. 

Durante os anos 1970, Pasolini identificou, (...), uma verdadeira transmutação nas sensibilidades de amplos setores da sociedade italiana, em consequência do “novo fascismo” imposto pela globalização.

Acreditava que esse processo estava criando – fundamentalmente por meio do influxo semiótico da publicidade e da televisão – uma nova “espécie” de jovens burgueses, que chamou de “os sem futuro”:

jovens com uma acentuada “tendência à infelicidade”, com pouca ou nenhuma raiz cultural ou territorial, e que estavam assimilando, sem muita distinção de classe, os valores, a estética e o estilo de vida promovidos pelos novos “tempos do consumo”.

Quarenta anos depois, outro inquieto intelectual de Bolonha – o filósofo e teórico dos meios de comunicação Franco “Bifo” Berardi – acha que o sombrio diagnóstico de Pasolini tornou-se profético, diante da situação de “precariedade existencial” e aumento de transtornos mentais que as mudanças neoliberais provocaram.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o suicídio é hoje a segunda causa de morte entre jovens e crianças – a grande maioria do sexo masculino – entre 10 e 24 anos. Do mesmo modo, a depressão – patologia emocional mais presente no comportamento suicida – será em 2020 a segunda forma de incapacidade mais recorrente no mundo.

http://outraspalavras.net/capa/neoliberalismo-assexualidade-e-desejo-de-...

Releitura de Pablo Neruda

Plena mulher, maçã carnal, lua quente, 
espesso aroma de algas, lodo e secreção, 
que obscura claridade se abre entre tuas pernas? 
que antiga noite o homem toca com seus sentidos?

Ai, amar é uma viagem com líquidos e com estrelas, 
com ar opresso e bruscas tempestades neurais:
amar é um combate de relâmpagos e dois corpos
por dois meles derramados.

Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito, 
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos, 
e o fogo genital transformado em delícia 

corre pelos tênues caminhos do sangue 
até precipitar-se como um cravo noturno, 
até ser e não ser senão na sombra de um raio.

APAGA A LUZ

Fala baixo

baixinho

Apaga a luz

e deixa a vitrola em surdina 

É pena que não tenho cigarros

nem amor

para te dar 
 
Eunice Arruda

A BONECA

Enterraram a boneca

a boneca de

pano

Era trapo

Era nada

Enterraram a boneca

Agora enterro

a unha na terra

e a boneca

hoje de carne

grita

Eunice Arruda

A TERRA É REDONDA

A TERRA É REDONDA

Se corro corro

risco de

chegar

Ao mesmo lugar

Eunice Arruda

PROPÓSITO

PROPÓSITO

Viver pouco mas

viver muito

Ser todo pensamento

Toda esperança

Toda alegria

ou angústia-------mas ser

Nunca morrer

enquanto viver
 

Eunice Arruda