sábado, 26 de outubro de 2013

O Estado e A Violência

Por Fernando Cisco Zappa

manifestar (do latim manifestare) significa tornar evidente, claro, público.

o que se tornou evidente, claro e público, com os levantes de junho de 2013 - a princípio, bem a princípio - a Desconexão entre o Povo e a Política Partidária, a Não-Representatividade que o modelo Democrático Liberal legitima. uns mais, outros mais ainda, somos todos (a totalidade da população brasileira) vitimados por esses sintomas.

avançamos nos últimos 12 anos. diminuímos a miséria, a fome, o analfabetismo, a mortalidade infantil, mas ainda não foram alcançadas fundamentais melhorias e garantias de acesso qualificado à saúde, educação, quanto à transparência e bom uso do dinheiro público, qualidade de vida, transporte de qualidade para todos, acessibilidade, acesso aos meios e bens de produção cultural, direito de se apropriar do que produzimos na cidade, direito a divertimento e ludicidade, direito ao trabalho sem sofrimento e tantos outros. a lista é grande, devido às sucessivas décadas e décadas de ruptura entre o que realmente precisamos e o que fazem aqueles que ocupam as cadeiras legislativas, executivas e judiciárias do Brasil.

assim a Violência não é o modo como agimos ao nos manifestarmos, ao Ocuparmos as Ruas – gritando, estampando frases e palavras, rompendo barreiras, quebrando preconceitos. a Violência está na equivocada leitura que fazem de nós, no cotidiano vivido por cada brasileiro e brasileira, que têm o básico do básico, no limite da tensão entre isto e o mínimo. a Violência sistêmica imposta pelo modelo de gestão de pessoas, recursos e capitais: que gera medo, culpa, sofrimento e anula a criatividade, a espontaneidade.

mais do que tudo, continuam negando a legitimidade do ato de manifestar e afrontar o poder que não nos atende. somos por Eles falados. o próprio fato de Ocuparmos as Ruas já é, segundo os Governadores e suas Mídias, uma Afronta, uma Violência, dado o estado de privatização das cidades.
as argumentações dos políticos neoliberais, neoconservadores, neopentecostais e da mídia corporativa (vale lembrar que são 3 grandes grupos controlando e forjando fatos e informações: Globo, Abril e Folha) são espinhosas e falseadoras, criando um clima de terror e um jogo para desestabilizar o pouco que já conquistamos a duras penas.

quando um prefeito ou um governo atende as demandas da comunidade isto é uma vitória do povo e da representatividade e não uma derrota política do prefeito. derrota de quem? será que eles sabem o que queremos derrotar?

ao fim e ao cabo utilizam sempre o jargão: a Violência dos manifestantes desrespeita a democracia, fere os princípios constitucionais democráticos. quais? quem permanentemente desrespeita a democracia é justamente os mesmos que controlam as bancadas, os bancos, as grandes corporações e a mídia.

na verdade, como disse Luciano Canfora, é impróprio definir como democracia um sistema político no qual o voto é mercadoria no mercado político e a admissão às câmaras, aos congressos nacionais, às assembleias, ao Parlamento de um modo geral, requer um altíssimo uso de Dinheiro Privado, um dispêndio eleitoral fortíssimo por parte do candidato a “Representante Popular”. esse é o pilar básico do sistema. a camada política representa tendencialmente as classes médio-altas e abastadas.

as manifestações continuarão. não sabemos em que vai dar. poderá ser absorvida pelos políticos, como já vem oportunisticamente acontecendo nos discuros e nos programas de tv do pps e do pv, para citar estes partidos neoconservadores. pode ser que tudo tudo acabe numa terça-feira ou Não.
continuemos a agir através das manifestações, façamos disso uma Orge.

a palavra grega Orge, segundo pesquisa de Luiz Costa Pereira, serve tanto para agitação, como para irritação e acabou, alimentada pelas manifestações humanas, por virar a matriz de ORGÁON – desejo ardente. Por sua vez antepassado de Orgasmo, essa explosão de prazer que não tem CONTROLE REMÉDIO ou HORA MARCADA.

nem nunca terá.

http://jornalggn.com.br/blog/cisco-zappa/o-estado-e-a-violencia

3 comentários:

  1. Excelente abordagem.

    Os políticos "top" do Brasil reconhecem estas deficiências que você aponta do modelo e têm tomado uma série de iniciativas no sentido de corrigir ou minorar estas circunstâncias.

    Foi assim que Dilma chamou alguns dos grupos para as reuniões, liberou verbas e realizou ações dentro do que foi reivindicado.

    Tarso Genro está igualmente tomando o rumo de inserir a população em todo o processo deliberativo e decisório.

    Lula já se manifestou positivamente reconhecendo os movimentos como legítimos.

    O problema em algumas das análises é que colocam em um mesmo balaio uma série de circunstâncias como A=B=C, além de antecipar situações como fazer coro indireto contra manifestações pois elas podem descambar para despedrações, etc.

    Democracia é isso, a liberdade existe e é para ser exercida; os excessos que sejam enquadrados dentro da tipificação da legislação, sob pena de se proibir antecipadamente ou preventivamente qualquer evento que reúna grande número de pessoas e que possam desencadear violência.

    A direita se diverte com estas tentativas "ações preventivas" e a recriminação antecipada dos movimenntos.

    Um vereador de Salvador chegou a propor uma "regulação" para que as manifestações fossem realizadas em auditórios de teatro nas periferias, pois desta forma não causaria prejuízo à sociedade com a paralisação de vias que dão em hospitais e a garantia da liberdade de ir e vir da população.

    Aliás, o indiciamento inicial de militantes do Greenpeace por crime de pirataria na Rússia com pena que pode atingir 15 anos demonstra a que ponto podemos chegar.

    Mas, parte da sociedade adora "julgamentos exemplares".

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    1. Bom texto e bom comentário. lucas

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    2. assis, inicialmente agradeço a partilha e a possibilidade do diálogo.

      gostaria de acrescentar que em grandes e seguidas manifestações excessos sempre haverão. amadurecer posturas é fundamental para sabermos lidar com os excessos, seja através de justas medidas e ações, seja através do entendimento, através da correção dos rumos pela identificação, interpretação dos erros e equívocos. nunca pela proibição e pela criminalização dos manifestantes, enquadrando-os como formadores de quadrilha ou terroristas.

      acredito que a violência dos black blocs é um sinal e um tipo de argumento contundente contra os símbolos do capitalismo, mesmo que muitos como nós condenem a violência. mas entender quais são os alvos dessa violência é também fundamental. entender se essa violência é fruto direto de toda a violência que a sociedade brasileira foi submetida ao longo de sua história é também outro ponto de partida.

      também, estarmos atentos, sem ingenuidades, que ações de infiltrados para desorganizar e gerar fatos para mais violência policial e criação de leis reacionárias é outro ponto que precisa ser apontado.

      e, indo além, assis, não podemos esquecer que tais manifestações - de todas as matizes e forças - só seriam possíveis tal qual são num governo democrático, notadamente o do partido dos trabalhadores.

      grande abraço!

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