sábado, 7 de setembro de 2013

A eleição direta para presidente no Esporte Clube Bahia



Esporte Clube Bahia e a primeira eleição direta para presidente e conselho deliberativo.

Este blog tem dado a cobertura esperada para todo o movimento de democratização no Esporte Clube Bahia que começou com o movimento democrático "Bahia da Torcida, campanha “zero público” nos estádios e ações judiciais que culminaram em uma intervenção judicial com a determinação de apuração, convocação de eleições para a escolha de um novo presidente em assembleia.

O Bahia viveu nos últimos anos a maior crise da sua história. O clube que é bicampeão nacional, condição obtida por poucos, caiu para a terceira divisão, alcançou altos índices de endividamento, perdeu vários dos seus jogadores da divisão de base por falta de recolhimento de FGTS e por vendas suspeitas pelo baixo valor das transações, a contratação de 103 jogadores em cerca de três anos, o que dava para armar quase dez times de futebol! Em sua maioria, jogadores que nem mereciam vestir a camisa do Bahia, alguns já no ocaso ou ultrapassados, pagos a peso de ouro.

A reação da torcida veio com o movimento democrático "Bahia da Torcida" que visa abrir a grande "caixa preta" que é o futebol, fato pioneiro no Brasil.

 Hoje, dia 7 de setembro vai entrar para a história do futebol brasileiro. Os torcedores sócios do Bahia finalmente vão eleger em voto direto o próximo presidente do tricolor.

Esse processo de eleição direta se inicia quando o interventor de termina a convocação de uma assembleia para análise e modificação dos estatutos do time.

Em assembleia histórica na Fonte Nova no dia 17 de agosto, 3.089 sócios votaram a favor da reforma estatutária (99%), 6 votaram "não" e outros 25 anularam seus sufrágios.

Assim, a partir de agora a "Carta Magna" do clube possui doze mudanças que tornam o Bahia, finalmente, democrático. São elas:

1- Todos os sócios adimplentes perante o clube poderão votar diretamente para escolher a nova diretoria executiva do clube, sem carência, sem filtros;

2-Criação de mandato temporário para a próxima direção executiva a ser eleita pela Assembleia Geral de Sócios, com mandato até dezembro de 2014 sem possibilidade de reeleição;

3-Possibilidade de o torcedor tornar-se sócio desde o seu nascimento, tendo direito a voto a partir dos 16 anos, desde que estando adimplente com o clube;

4-Redução de 300 para 100 membros do Conselho Deliberativo, com adoção do sistema eleitoral proporcional;

5-Adoção do Ficha-Limpa nas eleições para todos os cargos de presidente e vice e Conselho deliberativo.

6- Proibição de que ocupantes de cargo na administração pública direta, indireta ou fundacional sejam candidatos.

7) - Os membros da diretoria executiva que desejarem disputar mandatos eletivos para os cargos de vereador, prefeito, vice-prefeito, deputado estadual, deputado distrital, deputado federal, senador, suplente de senador, governador, vice-governador, presidente e vice-presidente da República deverão se afastar definitivamente das suas funções a partir da data de formalização do pedido de registro de candidatura junto á Justiça Eleitoral.

8- Dedicação exclusiva ao Esporte Clube Bahia de todos os membros da diretoria executiva.

9- Os cargos de Presidente e Vice- Presidente, bem como os de diretores, deverão ser remunerados, acabando com a farsa de “dirigente sem remuneração”, sendo vedado aos mesmos, no curso do mandato, o exercício de qualquer outra atividade pública ou privada remunerada.

10-Que os titulares dos cargos de Presidente e Vice Presidente do Esporte Clube Bahia será admitida a reeleição para um único mandato consecutivo.

11-Obrigatoriedade da apresentação de declaração de bens e valores que compõem o seu patrimônio privado.

12-Não poderão se candidatar para os cargos de Presidente e Vice-Presidente , cônjuge e parentes até o 2° grau.

Bora, Baêa!”

A necessidade urgente de mudanças na estrutura dos esportes no Brasil é motivo da excelente reportagem on line da revista Carta Capital de 06/09/2013, a seguir:

No esporte brasileiro, a luta é por democracia

A aprovação de dois projetos que mudam as regras de atuação das entidades esportivas abre ofensiva contra os senhores feudais do esporte

É cedo demais para otimismo, mas dois projetos aprovados nesta semana no Congresso podem colocar fim ao domínio de uma determinada classe de dirigentes sobre as federações e confederações esportivas brasileiras. Na Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado foi aprovado o parecer favorável (em PDF) da senadora Lídice da Mata (PSB-BA) a um projeto (em PDF) apresentado pelo senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB). O relatório altera de forma substancial do artigo 23 da chamada Lei Pelé, que trata dos estatutos de entidades de administração do esporte, e veta mais de uma reeleição consecutiva para qualquer dirigente, incluindo aqueles que já ultrapassaram o limite fixado. O projeto também torna inelegíveis os cônjuges e parentes consanguíneos de dirigentes esportivos para suas sucessões imediatas.

Em outra frente, foi aprovada por uma comissão mista (envolvendo deputados e senadores) a medida provisória 620, que também altera a Lei Pelé. A MP 620 também proíbe mais de uma reeleição, mas impõe outras alterações na administração esportiva, abrindo espaço para a participação de atletas e comissões de ex-atletas na gestão e nas eleições das federações e, mais importante, obrigando as entidades a se adequarem a novas regras de transparência para receber dinheiro público, que entra em seus caixas por meio de lei de incentivo ou convênios com o Ministério do Esporte.

Impacto. As duas medidas – o fim da reeleição indefinida e o estrangulamento do financiamento público para entidades pouco transparentes – devem abalar as bases da administração esportiva no Brasil.

Em agosto de 2012, Carta Capital mostrou na reportagem “Como derrubar os senhores feudais” que a manutenção de um mesmo dirigente no comando das federações esportivas é a regra no Brasil. Naquele momento, dez federações tinham o mesmo presidente há pelo menos dez anos – Atletismo, Desportos Aquáticos, Handebol, Canoagem, Vôlei, Tênis de Mesa, Tiro com Arco, Triatlo, Judô e Pentatlo Moderno. Nove delas continuam com o mesmo administrador. O único fora do posto é Roberto Gesta de Melo, o recordista, que esteve por 27 anos à frente da Confederação Brasileira de Atletismo e deixou para trás um esporte devastado.

Na mesma reportagem, Carta Capital mostrou como a interação entre a permanência indefinida de dirigentes e o controle sobre verbas públicas cria proto-ditaduras. Isso se dá em duas dimensões. A primeira é dentro de uma federação, e o exemplo mais claro vem do judô. Nos anos 1990, os campeões olímpicos Aurélio Miguel e Rogério Sampaio ficaram três anos fora de competições oficiais por conta de uma disputa com os Mamede, família que comandou o judô brasileiro por anos em meio a inúmeras denúncias de irregularidades.

A segunda dimensão é a mais grave. Há 18 anos no comando do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman é uma figura intocável. Isso porque é o presidente do COB quem determina o destino e o repasse das verbas para as 28 federações que compõem o COB, tornando qualquer embate virtualmente desastroso para seu opositor. Nuzman só pode ser desafiado por um candidato que obtenha o apoio de dez federações. Em resumo, para concorrer com Nuzman em uma eleição do COB, é preciso que dez esportes diferentes coloquem parte de seu financiamento sob risco e banquem um candidato alternativo.

O lobby dos dirigentes. A aprovação dos dois projetos deve provocar uma reação dos parlamentares ligados aos cartolas. Desde o ano passado, o COB se diz contrário ao projeto de Cássio Cunha Lima. A entidade defende o que chama de "autonomia das entidades esportivas" e pede que a gestão de um dirigente seja analisada sob a ótica "dos resultados e das conquistas alcançadas".

Na disputa para manter as coisas como estão, o COB contará com uma aliada importante, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), xodó da chamada "bancada da bola", sempre atenta aos interesses dos dirigentes esportivos. Essa bancada deve se mobilizar não apenas para proteger a CBF (e o COB e as federações de esportes olímpicos por tabela), mas também os clubes de futebol – está em curso no Congresso uma nova tentativa de anistiar as dívidas dos times de futebol com o poder público, avaliadas em cerca de 3 bilhões de reais.

A proteção aos interesses dos cartolas no Congresso não é uma novidade. Há 30 anos existem tentativas de aprovar projetos que exijam transparência e democracia interna nas entidades esportivas. Para o senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB) não há dúvidas de que a bancada da bola vai se mobilizar. No caso do seu projeto, que foi aprovado de forma terminativa na Comissão de Educação e agora vai à Câmara, Cunha Lima "passou a bola" para o deputado federal Romário (PSB-RJ). Seu objetivo é tornar o ex-jogador referência no debate e dar visibilidade ao projeto, para não deixá-lo cair no esquecimento.

O poder dos parlamentares ligados aos cartolas pode estar sendo reduzido, no entanto, como mostra o avanço dos dois projetos nesta semana. "Atribuo a aprovação a uma conjunção de fatores, que vão desde o processo de convencimento dos colegas senadores, à atuação de ex-atletas como Ana Moser e Raí [da ONG Atletas pela Cidadania], passando pelas manifestações de junho que provocaram transformações no Brasil", diz Cássio Cunha Lima em entrevista aCartaCapital. A senadora Lídice da Mata (PSB-BA) concorda. "Projetos que estavam parados há anos, obstruídos por interesses minoritários mas poderosos, acabaram por ganhar luz e força", disse a senadora (leia a íntegra da entrevista).

Para os dois parlamentares, a realização da Copa das Confederações e a aproximação da Copa do Mundo-2014 e dos Jogos Olímpicos-2016 aumentam a pressão sobre o Congresso. "A atuação [da bancada pró-cartolas] fica cada vez mais limitada, camuflada. A tese que defendem, de permanecer no poder indefinidamente, é uma tese que, na crítica coletiva da sociedade, não é mais sustentável", diz Cunha Lima. Não é para menos: cada vez mais, percebe-se que o dirigente esportivo luta por seus interesses, e não pelos do esporte brasileiro.

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