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domingo, 25 de setembro de 2022

Já não tenho tempo...

(...) Já não tenho tempo para lidar com mediocridades…Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.

Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte. 

Já não tenho tempo para conversas intermináveis…

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas que, apesar da idade cronológica, são imaturas...

Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral…

As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos…

Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos…

quero a essência…minha alma tem pressa…

quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços…

não se encanta com triunfos…não se considera eleita antes da hora…não foge de sua mortalidade. 

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade…

O essencial faz a vida valer a pena…e para mim basta o essencial… 

Rubem Alves

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

O Tempo ... Rubens Alves

(...) Já não tenho tempo para lidar com mediocridades…Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.

Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte. 

Já não tenho tempo para conversas intermináveis…

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas que, apesar da idade cronológica, são imaturas...

Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral…

As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos…

Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos…

quero a essência…minha alma tem pressa…

quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços…

não se encanta com triunfos…não se considera eleita antes da hora…não foge de sua mortalidade. 

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade…

O essencial faz a vida valer a pena…e para mim basta o essencial… 

Rubem Alves

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Bem no fundo

 Bem no fundo

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

Paulo Leminski

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

A mão de um amigo

É justo quando um espinho
perfura seu coração
que você se aperreia
por um amigo, um irmão,
um conhecido, um parente
que sinta o que você sente
e lhe estenda a mão.

O mundo gira e tritura
feito um perverso moinho.
Cava buraco, põe pedra
no meio do seu caminho.
E nessa dura jornada
tem muita pedra pesada
que não se tira sozinho.

Avalie só o peso
da pedra da solidão,
da derrota, da tristeza,
da dor, da decepção,
de tantas pedras que a gente
vai enfrentar pela frente
quer você queira ou não.

Não adianta desviar
deixando a pedra pra trás
se lembre que o mundo gira
num movimento voraz
e lhe obriga a voltar
pra dessa vez enfrentar
o que lhe tirou a paz.

É aí nesse momento
confuso, fraco e cansado
que em vez de olhar pra frente
o cabra olha pro lado
e o medo se faz ausente
pois tem gente com a gente
mesmo tudo dando errado.

Tem gente que lhe diz tudo
que você precisa ouvir
sem sequer abrir a boca,
fazendo você sentir
que por mais que seja duro,
que o caminho seja escuro,
a gente tem que seguir.

Tem gente que lhe entende
às vezes sem concordar
que aceita os seus defeitos
sem precisar lhe mudar
e mesmo que você erre
esse alguém não vai julgar.

Gente precisa de gente
pra sentir cumplicidade
sentir amor, confiança,
segurança e lealdade.
Por isso, nesse caminho,
quem quer caminhar sozinho
não é forte de verdade.

Que o amor seja presente,
que sempre lhe fortaleça,
que a vida lhe dê amigos,
que você sempre agradeça,
que a cada sofrimento
esse belo sentimento
nasça, cresça e permaneça.

Bráulio Bessa

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Navio Negreiro


O Navio Negreiro/Um índio

Era um sonho dantesco... o tombadilho,

Tinir de ferros... estalar do açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

Negras mulheres, levantando às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras, moças... mas nuas, assustadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs.

Um de raiva delira, outro enlouquece...
Outro, que de martírios embrutece,
chora e dança, ali.

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus...

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba

Dize-o tu, severa musa,
Musa libérrima, audaz!

São os filhos do deserto
Onde a terra esposa a luz.
Onde voa em campo aberto
A tribo dos homens nus...

São os guerreiros ousados,
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão...
Homens simples, fortes, bravos...
Hoje míseros escravos
Sem ar, sem luz, sem razão...

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana
Quando a virgem na cabana
Cisma das noites nos véus...
...Adeus! ó choça do monte!...
...Adeus! palmeiras da fonte!...
...Adeus! amores... adeus!...

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus...

Ó mar, por que não apagas
de tuas vagas
De teu manto este borrão?
Astros! noite! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!...

E existe um povo que a bandeira empresta
P`ra cobrir tanta infâmia e covardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?!...

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,

Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...

...Mas é infâmia demais...
Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo...
Andrada! arranca este pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta de teus mares!
......

domingo, 24 de abril de 2022

Brasil - Clã do Jabuti

Brasil amado não porque seja minha pátria,
Pátria é acaso de migrações e do pão-nosso onde Deus der...
Brasil que eu amo porque é o ritmo do meu braço aventuroso,
O gosto dos meus descansos,
O balanço das minhas cantigas amores e danças.
Brasil que eu sou porque é a minha expressão muito engraçada,
Porque é o meu sentimento pachorrento,
Porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir.

Mário de Andrade

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Carpe Diem de Walt Whitman

Carpe Diem: análise do poema de Walt Whitman

Por muitas vezes, palavras inspiradoras transcenderam o tempo e continuam a nos mostrar valiosas lições sobre a vida. É o caso do poema carpe diem, reconhecido historicamente por seu conteúdo inspirador. Vamos para uma breve análise de como ele pode colaborar com a nossa perspectiva de vida.

Origens do poema Carpe Diem
Carpe diem é uma frase em latim, nomeando um dos mais famosos poemas de Horácio, significando “aproveite o dia”. 

Esse aproveitar o momento é um convite para que não percamos mais tempos com coisas sem valor e inúteis. 

Assim, precisamos fazer imediatamente aquilo que nos dará prazer sem qualquer arrependimento.

O termo teve origem na queda do império romano, servindo para designar algo como “cada um por si”. Já que o império estava se desconstruindo, havia uma perspectiva de que o hoje poderia ser nosso último dia.

Como deve imaginar, as palavras acabaram ressignificadas e hoje apontam para algo positivo e construtivo ao nosso futuro. O desespero causado pela destruição do império acabou dando lugar a um incentivo colossal a vivermos nossas vidas como queremos.

O poema
Aproveita o dia (tradução),  de Walt Whitman

Aproveita o dia,

Não deixes que termine sem teres crescido um pouco.
Sem teres sido feliz, sem teres alimentado teus sonhos.

Não te deixes vencer pelo desalento.

Não permitas que alguém te negue o direito de expressar-te, que é quase um dever.

Não abandones tua ânsia de fazer de tua vida algo extraordinário.

Não deixes de crer que as palavras e as poesias sim podem mudar o mundo.
Porque passe o que passar, nossa essência continuará intacta.

Somos seres humanos cheios de paixão.
A vida é deserto e oásis.
Nos derruba, nos lastima, nos ensina, nos converte em protagonistas de nossa própria história.

Ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua, tu podes trocar uma estrofe.

Não deixes nunca de sonhar, porque só nos sonhos pode ser livre o homem.

Não caias no pior dos erros: o silêncio.
A maioria vive num silêncio espantoso.
Não te resignes, e nem fujas.

Valorize a beleza das coisas simples, se pode fazer poesia bela, sobre as pequenas coisas.

Não atraiçoes tuas crenças.              
Todos necessitamos de aceitação, mas não podemos remar contra nós mesmo.
Isso transforma a vida em um inferno.

Desfruta o pânico que provoca ter a vida toda adiante.                                 
Procures vivê-la intensamente sem mediocridades.                                    
Pensa que em ti está o futuro, e encara a tarefa com orgulho e sem medo.

Aprendes com quem pode ensinar-te as experiências daqueles que nos precederam. 

Não permitas que a vida se passe sem teres vivido…


Walt Whitman

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-Walt Whitman (1819–1892) foi um jornalista, ensaísta e poeta americano considerado o “pai do verso livre” e o grande poeta da revolução americana.

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

O Tédio - Heinrich Heine

 O Tédio - Heinrich Heine, adaptação Mendes de Oliveira. 

Paciente: Venho doutor, fazer-lhe uma consulta.
A doença que me punge e esteriliza a mocidade e o espírito,
Resulta de uma chaga que nunca cicatriza.
Muito embora comum a toda gente, a de que sofro, atroz hipocondria,
Tanto me torna pensativo e doente, que já não sei o que é paz nem alegria...
Sendo o mais sábio clínico do mundo, sois também um filósofo notável, do peito humano auscultador profundo, curareis este mal inexorável,
Que me destrói o organismo fibra-a-fibra,
Que me enevoa o cérebro e o condensa.
Eu tenho um coração que já não vibra.
Suporto uma cabeça que não pensa.
Este tédio mortal, tédio agoureiro,
Que me envenena, que me escurece os dias,
É como os beijos dado á dinheiro, numa noite de orgias.

Doutor: O amigo tem razão, padece realmente.
Contudo a enfermidade, o morbus que o devora,
É um produto fatal do século de agora.
Uma emoção vibrante, um abalo violento, pode cura-lo, Creio. 
Apenas num momento. O tédio é uma sombria, uma
Fatal loucura. É a treva interior, a grande noite escura.
Onde se esquece tudo. A sorte, a vida amada.
O nosso próprio ser e só se lembra o nada.
---diga-me. Alguma vez amou?
Nunca em seu peito estrugiu das paixões o temporal desfeito ?
Como as vagas de um mar que se agita e encapela, ao soturno rumor do vento.
E da procela?

Paciente: Nunca. 

Doutor: Pois meu caro. Procure a agitação constante.
Um prazer esquisito, um gozo triunfante.
Já visitou a Grécia, o Oriente, a terra santa ?
Os sítios onde tudo hoje evoca e decanta, as glorias uma idade imorredoura
E eterna, que amesquinha e deslumbra a geração moderna ?

Paciente: Em híbridos festins passei a mocidade. Percorri viajando, o mundo
E a humanidade, como Judas da lenda.
E entre as mulheres todas, cujos lábios beijei,
Em bacanais e bodas,
Mulher nenhuma eu vi sobre a terra tamanha,
Que para mim não fosse uma visão estranha.
Como parti, voltei. Sem achar lenitivo para este mal doutor.
Que assim me trás cativo.

Doutor: Frequente o circo, amigo. A figura brejeira do famoso Arlequim,
Que a esta cidade inteira palmas e aclamações constantemente arranca.
Talvez lhe restitua a gargalhada franca.

Paciente: Vejo doutor, que o meu caso é perdido.
O truão de que falas, o palhaço querido
Que anda no Coliseu assim tão aclamado, tem um riso
De morte, um riso mascarado, que encobre a dor sem fim
Do tédio e do cansaço... sou eu este Palhaço.

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

O Tédio, Heinrich Heine, poema

O Tédio
Heinrich Heine, adaptação Mendes de Oliveira.

Paciente: Venho doutor, fazer-lhe uma consulta.
A doença que me punge e esteriliza a mocidade e o espírito,
Resulta de uma chaga que nunca cicatriza.
Muito embora comum a toda gente, a de que sofro, atroz hipocondria,
Tanto me torna pensativo e doente, que já não sei o que é paz nem alegria...

Sendo o mais sábio clínico do mundo, sois também um filósofo notável, do peito humano auscultador profundo, curareis este mal inexorável,
Que me destrói o organismo, fibra-a-fibra,
Que me enevoa o cérebro e o condensa.

Eu tenho um coração que já não vibra
Suporto uma cabeça que não pensa.
Este tédio mortal, tédio agoureiro,
Que me envenena, que me escurece os dias,
É como os beijos dado á dinheiro, numa noite de orgias.

Doutor: O amigo tem razão, padece realmente.
Contudo, a enfermidade, o morbus que o devora,
É um produto fatal do século de agora.
Uma emoção vibrante, um abalo violento, pode cura-lo,
Creio. Apenas num momento. O tédio é uma sombria, uma fatal loucura. 
É a treva interior, a grande noite escura.
Onde se esquece tudo. A sorte, a vida amada.
O nosso próprio ser e só se lembra o nada.

---diga-me. Alguma vez amou?
Nunca em seu peito estrugiu das paixões o temporal desfeito ?
Como as vagas de um mar que se agita e encapela, ao soturno rumor do vento.
E da procela?

Paciente: Nunca. 

Doutor: Pois meu caro. Procure a agitação constante.
Um prazer esquisito, um gozo triunfante.

Já visitou a Grécia, o Oriente a terra santa ?
Os sítios onde tudo hoje evoca e decanta, as glorias uma idade imorredoura
E eterna, que amesquinha e deslumbra a geração moderna ?

Paciente: Em híbridos festins passei a mocidade. Percorri viajando, o mundo
E a humanidade, como Judas da lenda.
E entre as mulheres todas, cujos lábios beijei
Em bacanais e bodas,
Mulher nenhuma eu vi sobre a terra tamanha
Que para mim não fosse uma visão estranha.
Como parti, voltei. Sem achar lenitivo para este mal doutor.
Que assim me trás cativo.

Doutor: Frequente o circo, amigo. A figura brejeira do famoso Arlequim,
Que a esta cidade inteira palmas e aclamações constantemente arranca.
Talvez lhe restitua a gargalhada franca. 

Paciente: Vejo doutor, que o meu caso é perdido.
O truão de que falas, o palhaço querido
Que anda no Coliseu assim tão aclamado, tem um riso
De morte, um riso mascarado, que encobre a dor sem fim
Do tédio e do cansaço... sou eu este Palhaço.