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sábado, 25 de fevereiro de 2017

A diferença entre axé, pagode, samba e arrocha, segundo os baianos

Juliana Lisboa
De Salvador para a BBC Brasil

Mistura de sons em trios elétricos e blocos de rua torna mais difícil para os foliões reconhecerem estilos musicais do Estado

Há quem diga que, para distinguir e definir os estilos da música baiana, somente sendo músico ou pesquisador. No Carnaval, então, a mistura de sons é ainda mais homogênea, e fica mais difícil entender se o que está tocando é samba, pagode, arrocha ou axé music, ritmos próprios da folia. Isso até mesmo para quem é da terra.

Se o folião é turista, a tarefa fica ainda mais complicada. Isso acontece porque, na música popular baiana, os músicos têm sua forma própria de tocar os instrumentos, na escolha dos arranjos, na execução do tempo e nas letras.

Mesmo em ritmos conhecidos no país inteiro, como o samba ─ que, vale lembrar, nasceu na Bahia.

Mas dá para traçar um padrão. Segundo a cantora Daniela Mercury, para funcionar na Bahia o que vale na música é a cadência.

"O baiano gosta de dançar. Se der para ele dançar, ótimo. Se não, ele rechaça. É impressionante. Só funciona se tiver suingue", diz ela, em entrevista à BBC Brasil.

Esse ritmo dançante, aliado à cultura de matriz africana e os estilos incorporados ao longo dos anos, formam a identidade da música baiana.

Entenda as principais características de cada ritmo:

O samba na Bahia tem mais influência das religiões de matriz africana do que o tocado no Rio de Janeiro, segundo especialistas

Samba

O samba da Bahia segue o mesmo padrão do samba de roda, que nasceu por volta de 1860 na região do Recôncavo Baiano, no interior do Estado.

É um pouco diferente do 'irmão mais novo', o samba carioca, que foi popularizado no Rio de Janeiro com as escolas de samba e com o samba-exaltação.

A principal diferença no som vem do fato de que, na Bahia, o ritmo tem uma influência maior de instrumentos utilizados nas religiões de matriz africana, como os atabaques. E outra coisa muito importante: no samba baiano, não há cuíca.

"O nosso samba é mais próximo do samba de roda. O samba de Riachão, de Batatinha. Mas temos diferenças na execução, sobretudo do tempo, que favorece a dança com rebolado. Dizem que o baiano dança samba com a bunda, e que o carioca dança com o pé", diz o jornalista, DJ e produtor Luciano Matos.

Assista: Cada macaco no seu galho, de Riachão

Coreografias são uma das principais marcas do pagode baiano, assim como a influência de danças africanas

Pagode

O pagode baiano é 'filho' do samba, mas incorpora, também, instrumentos eletrônicos, misturas com a batida do funk e outros ritmos dançantes.

De acordo com a jornalista e youtuber Maíra Azevedo, especializada em música e entretenimento, são os elementos acústicos de origem africana que diferenciam o samba do pagode baiano.

"O samba se restringe à percussão. Tem a gonga, alguns usam o atabaque, o pandeiro. Mas sem qualquer instrumento eletrônico. Isso é samba", define.

Mas se você tem dúvida se o que está ouvindo é pagode, Azevedo indica observar se as pessoas ao redor estão dançando igual.

"Se a música é coreografada, é pagode", define.

Basta lembrar dos hits do grupo É O Tchan - mesmo quem não gosta sabe até hoje as coreografias mais importantes.

O músico Jonga Cunha, que é autor de Por Trás dos Tambores, livro sobre os bastidores do axé music, tem uma teoria sobre a diferença entre o pagode baiano e o do eixo Rio-São Paulo.

"O pagode do Rio é um pouco mais lento, o nosso é mais dançante por influência do samba de roda, da conga e dos cânticos do candomblé. Quando toca, não fica ninguém parado."

"Aí dizem que as letras são ruins. Mas são ruins no Brasil todo, o pagode baiano é uma maravilha", defende.

Maíra aponta que o pagode ainda é muito marginalizado, dentro e fora da Bahia.

"Existe uma discriminação muito grande porque algumas letras são sexualizadas, até mesmo explícitas", diz.

E, de fato, mesmo o maior fã de pagode concorda que, na Bahia, existe o termo 'baixo astral' para classificar as músicas de cunho muito sexual ou que sejam ofensivas às mulheres.

Mas Maíra defende que o preconceito não para por aí.

"A maioria das grandes bandas, mesmo as do alto escalão, veio de bairros extremamente pobres de Salvador. É o caso do Psirico, que vem do Engenho Velho de Brotas; Harmonia do Samba, de São Caetano; e Leo Santana, de Boa Vista do Lobato. E tudo que vem da periferia é tratado com desdém", opina.

Luciano Matos concorda. "Acho que hoje o pagode e o arrocha encontram o mesmo tipo de preconceito que o Olodum teve no final dos anos 1980 e 1990. É o que as pessoas de classe média e alta veem como música de pobre, música de empregada doméstica", critica.

Assista: Daquele Jeito, de Harmonia do Samba

O Arrocha nasceu em Candeias, na região metropolitana de Salvador, como uma espécie de "brega" baiano

Arrocha

Esse pode ser o grande motivo que impediu que o sertanejo universitário, que virou moda em boa parte do Brasil, tomasse conta da Bahia.

Com influência do forró e das músicas de seresta, o arrocha é a autêntica música de dor de cotovelo. E, assim como os outros ritmos, também é dançante.

"O latino-americano adora cantar o amor que perdeu em vez do amor que tem ou que vai ganhar. É uma música de dor e é musica de amor, também. Acho que é por isso que o sertanejo universitário está na moda. Não 'pega' tanto aqui na Bahia porque temos uma música local muito forte, que é o arrocha, que já faz sucesso há bastante tempo", diz Jonga Cunha.

Daniela Mercury acredita que a música estilo dor de cotovelo já está incorporada na cultura baiana.

"Dentro do universo da 'sofrência' você tem o arrocha, o groove arrastado do pagode e o próprio samba de roda. Esse sertanejo novo é uma variação do forró nordestino, o mesmo do arrocha, que começou a fazer sucesso. E já são velhos conhecidos nossos. Não temos preconceito e não temos limite para essa mistura."

Assista: Desapeguei, de Pablo

Axé music

Talvez o axé music seja o que mais divide artistas, pesquisadores e o próprio folião baiano.

Para Luciano Matos, não é um ritmo, mas um estilo com vários ritmos.

Para Daniela Mercury, é um gênero musical, que possui influências diversas e múltiplas adaptações.

Já Jonga Cunha acredita que o axé é um movimento musical, como a Tropicália e a Bossa Nova.

Todos eles, no entanto, concordam que o axé pode ser visto como a representação musical do Carnaval da Bahia.

"Na verdade, o nome axé é um guarda-chuva para o universo infinito de possibilidades rítmicas. Então, o axé não é um ritmo, é um gênero musical, que é muito certo para o Carnaval em cima do trio, e que incorpora todos os ritmos mundiais, entre rock, reggae, funk... Desde que tenha o suingue", resume a cantora, que se tornou a primeira representante nacional do estilo.

Para Daniela Mercury, expressão "axé music" abarca diversos tipos de música que podem ser tocadas na festa de rua, desde que tenham suingue

O axé foi concebido - ainda sem esse nome - na década de 1950, quando Armandinho, Dodô e Osmar misturaram o frevo pernambucano com o galope, derivado do forró, e a guitarra elétrica. Mais tarde, vieram as influências de ritmos afro-brasileiros como o samba-reggae, e o ijexá do grupo Ilê Ayiê.

Mas a evolução musical continuou para além disso. "Artistas como Luiz Caldas e Geronimo juntaram outras referências, como ritmos latinos. Tanto é que o Pará tem até uma rixa com a gente, porque a lambada, que é deles, ficou famosa aqui", afirma Luciano Matos.

A percussão tornou-se tão importante no estilo que os próprios artistas começaram a incorporar, em sua forma de escrever e de cantar, sons que imitavam instrumentos como o timbal.

"(A letra do Olodum) 'Avisa lá que eu vou chegar mais tarde, oh yeah / Vou me juntar ao Olodum que é da alegria' é bem rítmica, é quase uma percussão feita com a letra da música e com a voz. Isso é algo bem próprio da música de Salvador", explica Mercury.

Nos anos 1980, o termo "axé music" foi criado, com cunho pejorativo, pelo crítico Hagamenon Brito. Mas acabou sendo adotado por produtores e artistas.

"Depois daí surgiu o que se chama de axé, com uma linguagem mais pop e de refrão fácil de decorar", disse Luciano Matos.

Basta lembrar as músicas mais famosas de Ivete Sangalo, Chiclete com Banana e Asa de Águia, com muitas exclamações e refrões que falam de amor e, claro, de seguir os trios elétricos no Carnaval.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Uma viagem pelo carnaval da Bahia de 1884 a……….

O carnaval de Salvador, a primeira capital do Brasil, evoluiu como no Rio de janeiro e em diversas outras partes do país. As iniciativas tomadas para conter os abusos do entrudo português fizeram surgir os bailes dos salões, com grande destaque para as festas à fantasia do teatro São João, o corso, os cordões e blocos diversos. O ano de 1884 é considerado um marco pelos baianos devido a organização apresentada pelas manifestações populares à partir deste ano.

No finalzinho do século XIX, por volta de 1894, 1895, surgiu o Afoxé, um tipo de grupo formado por negros que representavam casas de culto de herança africana e saíam às ruas cantando e recitando seqüências de músicas e letras. Os afoxés exibiam-se na Baixa dos Sapateiros, Taboão, Barroquinha e Pelourinho, enquanto os grandes clubes desfilavam em áreas mais nobres. O mais famoso afoxé é o “Filhos de Gandhy”, criado em 1949 – ano do IV centenário da cidade – pelos estivadores do Porto de Salvador. O nome é uma homenagem ao pacifista indiano Mahatma Gandhy, assassinado um ano antes.


A maior inovação do Carnaval da Bahia porém, foi o Trio Elétrico de Dodô e Osmar, que surgiu em 1950 e representa a consagração do carnaval de rua.A primeira apresentação foi feita em cima de um Ford 1929, com guitarras elétricas e som amplificado por auto-falantes, às cinco da tarde do Domingo de carnaval.


O desfile aconteceu no Centro da cidade arrastando uma verdadeira multidão. Na verdade, o nome “trio elétrico” só surgiu mesmo no ano seguinte, quando três músicos se apresentaram em cima do tal carro.

Nos anos 70 o carnaval presenciou o nascimento de grupos históricos, como os Novos Baianos e o bloco afro Ilê Aiyê, além do renascimento do Filhos de Gandhy. Era o começo do crescimento cultural do Carnaval de Salvador, que passou a enfatizar os conflitos e a protestar contra o racismo.

Na década de 80, grupos como Camaleão, Eva e  Olodum escreveram seus nomes na história da festa mais popular da Bahia


1880
Os salões são os locais preferidos pela elite soteropolitana para brincar o carnaval, embora nas ruas ainda persistam as brincadeiras violentas do entrudo, costume que antecedia a Quaresma, trazido pelo portugueses: gente atirando bolas cheias de água, muitas vezes malcheirosa. A polícia reprime essas manifestacões, e, nos próximos anos da décadas, as ruas ganham outros tipos de brincadeiras, desfiles de carros a;egóricos, e a população mais pobre (incluindo os negros) dançando – e batucando – pela cidade.


1895
Fundada a Embaixada Africana, o primeiro afoxé de salvador, formado por negros nagôs. que desfilaram  com roupas e objetos de adorno importados da África.Em 1896, surgiu, então, o segundo afoxé, o “Pândegos da África”, organizado também por negros. Os grupos representavam casas de culto de herança africana e saíam às ruas cantando e recitando seqüências de músicas e letras.


1942
Adolfo Antonio Nascimento, o Dodô, conhece o violão elétrico e resolve desenvolver um instrumento semelhante. Constrói um violão para si e um cavaquinho para Osmar Älvares de Macêdo, o Osmar, para serem ligados a amplificadores de som. No começo. Os instrumentos apresentam microfonia, mas um dia, Dodô descobre que o uso de madeira maciça resolve o problema. Nasce assim a precursora da guitarra baiana, chamada de pau elétrico. A dupla a se apresentar com a novidade em clubes e festas.

1949
Um grupo de estivadores do porto de Salvador funda o afoxé Filho de Gandhi, homenageando o pacifista indiano.

1950
Dodô e Osmar saem pela rua Chile e Praça Castro Alves, no centro da cidade, tocando os paus elétricos em velho ford 1929, apelidado carinhosaente de “Fobica”, e equipado com primitivos alto-falantes. Eles mesmos se dão o nome de Dupla Elétrica. O sucesso é imediato, arrastando multidões pelo centro de Salvador ao som de… frevo! No ano seguinte, se transfoormariam em “trio elétrico”, com a adesão de Temístocles Aragão ao grupo, tocando um cavaquino elétrico chamado triolim. Uma picape substitui o Ford e, em volta do carro, o som é multiplicado por oito cornetas.

1955
O Trio Tapajós aparece pela primeira vez no carnaval soteropolitano. Orlando Campos ( ou Orlando Tapajós) inventa a carroceria elérica em cima de uma camnhonete, melhorando o modelo surgido com Dodô e Osmar.


1960
Muitos foliões vestem a mortalha, um espécie de “camisolão”, anatecessora do abadá, Opção às fantasias tradicionais que imperavam desde o século XIX (índios, piratas, árabes), a mortalha era uma espécie de roupa de carrasco, com cores fúnebres, cruzes e capuz. Com o tempo, ganharam cores e frases engraçadas e, nos anos 1970, foram incorporadas como fantasias ofciais dos blocos.

1962
Criado o primeiro grande bloco, Os Intencionais. Os bloco começam a adotar mortalhas como fantasias e cordas de delimitação. O som que os acompanham são feitos apenas com instrumentos de percussão. Nessa época, novos trios elétricos nascem.

1969
“Atrás do trio elétrico/só não vai quem já morreu”. Caetano veloso, lança a música Frevo Baiano, homenageando s ivensão do trio elétrico. Três anos depois, Orlando Tapajós cria a Caetanave, com a carroceria de seu trio em forma de avião, para homenagear o músico Caetano Veloso, que voltava do exílio por causa da ditadura militar.

1972
A música Chuva, Suor e Cerveja, de Caetano Veloso, vira sucesso e quase um hino do carnaval.

1974
É fundado o Ilê Aiyê, o primeiro bloco afro-baiano do carnaval, dedicado a expandir a cultura afro-brasileira.

1976
Oficialmente, a data marca a primeira vez que músico canta em cima de um trio elétrico. O baiano Moraes Moreira entrou na avenida a bordo do Trio Tapajós e j;a aprovava a mistura que é o carnaval baiano, cantando um pouco de tudo – de frevo a rock. Alguns, porém, rebatem que foi Baby Consuelo quem primeiro cantou em um trio, usando um microfone ligado ao cabo de uma guitarra.

1978
Entra em cena o bloco Camaleão, um dos pioneiros entre os que surem nas décadas de 1970 e 1980. O bloco marca o início da profissionalização do carnaval como ele é hoje.

1980
Traz os Montes e o primeiro trio elétrico a trocar os amplificadores a válvula por equipamentos transistorizados, aumentando a potência do som e estacando a voz do cantor. O trio também substitui as bocas de alto-falantes por caixas de som retangulares, e a banda passa a se apresentar completa em cima do caminhão. Quem estreou  com sucesso o equipamento é Bell Marques, ainda com sua banda Scorpius (que virou o Chiclete pouco tempo depois). Em 1981, a Banda  da Eva passa a tarefa de projetar o sistema de som a engenheiros especializados e importa sofisticados equipamentos. Assim, surge um novo padrão de qualidade, que serviria de modelo para os trios elétricos.

1982
Bermuda, short e macação começam a tomar o lugar da mortalha como roupas mais adequadas para pular o carnaval.

1985
O cantor Luiz Caldas grava Fricote. A música ganha as rádios e prenuncia oestrouro da axé music em todo o Brasil. A música .

1986
A música Sou Negão,  de Gerônimo, faz sucesso em todo o Brasil e marca mais uma vez a valorização da cultura afro. No rastro desse sucesso, outras bandas começam  a tomar o mesmo rumo artístico.

1987
Auge do grupo Olodum, dando visibilidade ao samba-reggae e aos ritmos de percussão afro-baiano, que ainda hoje dominam o carnaval. A Banda Mel grava Faráo, composta pelo Olodum. A música se torna conhecida nacionalmente.

1990
Começa a parceria da banda Chiclete com Banana com o bloco Camaleão, que permanece até hojo. Nesse ano, o publicitário Pedrinho da Rocha cria abadá, adaptação da mortalha que se torna mais confortável para o folião.
O bloco Eva é o primeiro a adotar o abadá, uma das características marcantes do carnaval de Salvador.

Netinho leva um trio elétrico para se apresentar nas cidades italianas onde a seleção brasileira joga a Copa do Mundo. No mesmo ano, o Olodum grava uma música com o cantor e compositor americano Paul Simon, o que fez o grupo ser conhecido fora do país. O início da década ainda é marcado pelo surgimento dos blocos alternativos, que saem na quinta, sexta e sábado. Com o tempo, o Chiclete com Banana cria o seu alternativo Nana Banana, o Eva lança o Nu Outro, e o enterlada forma o Timbalada.

1992
Com a música o Canto da Cidade, Daniela Mercury é sucesso em todo o país e se torna uma das principais artistas da música popular brasileira. O  estrondoso sucesso da cantora ajuda a divulgar o carnaval da Bahia internacionalmente.
Outro sucesso de 1992 foi a música Baianidade Nagô com a Banda Mel.

1993
Inspirado nas vestimentas de capoeira, o publicitário Pedrinho Rocha desenha o modelo de abadá (camisa em dialeto africano) como ele é até hoje –  quem primeiro vestiu seus associados no carnaval foi o bloco Eva.

1994
O Ara Ketu faz grande suceddo com Ara Ketu Bom Demais.

1995
O grupo é o Tcham investe em canções com letras de duplo sentido e nas dançarinas que requebram bastante. Fica conhecido na Bahia e vira mania em todo o país. 

1996
Comandado o bloco Crocodilo, Daniela Mercury “inaugura” o circuito Barra-Ondina. Para divulgá-lo na mídia, cria o primeiro camarote com estrutura profissional, recebendo convidados famosos no circuito artístico.

1998
Flora Gil lança o Trio Eletrônico, para comemorar os 30 anos da Tropicália. Os representantes dos novos baianos que surgiram no final da década de 1960 desfilam pelas avenidas de Salvador, com Gilberto Gil de cicerone para amigos como Caetano Veloso, Gal Costa, Pepeu Gomes e Baby do Brasil. Um ano depois é criado o camarote de Flora, hoje chamado de Expresso 2222 e responsável pela mairo quantidade de celebridades internacionais presente nos carnavais de Salvador – da Rainha Silvia, da Suécia, a Bono Vox, vocalista do U2.

1999
Depois de alcançar o estrelato, Ivete Sangalo faz seu último carnaval na banda Eva e começa a carreira solo.

2000
Surge a Central do Carnaval, trazendo maios profissionalização ao carnaval de Salvador, facilittando a vida de turistas e foliões em geral. É da Central a ideía de combinar varios bloco e artistas; antes, os foliões não tinha escolha, e dançavam o mesmo bloco durante os três dias seguidos do carnaval.

2006
Um DJ de música eletrônica sobe pela primeira vez no trio elétrico, comandando o Bloco Skol D+. O inglês Fat Boy Slim repete a dose este ano, comprovando que a mistura de ritmos é a grande marca do carnaval de Salvador.
https://abahiadetodosospovos.wordpress.com/tag/o-afoxe/

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Axé, Afoxé, Ijexá

Afoxé - De origem iorubá, a palavra afoxé poderia ser traduzida como "a fala que faz". Para alguns pesquisadores seria uma forma diversa do maracatu. Três instrumentos básicos fazem parte desta manifestação. O afoxé (ou agbê), cabaça coberta por uma rede formada de sementes ou contas, os atabaques, e o agogô, formado por duas campânulas de metal. As melodias entoadas nos cortejos dos afoxés são praticamente as mesmas cantigas entoadas nos terreiros afro-brasileiros que seguem a linha jexá. O Afoxé, portanto, não é sinônimo de bloco carnavalesco. Trata-se de uma manifestação que tem profunda vinculação com as manifestações religiosas dos terreiros de candomblé.

Como se comemora - O afoxé tem um comportamento específico pois seus foliões estão vinculados a diversos terreiros de candomblé.  As principais características são as roupas, nas cores dos orixás, as cantigas em língua iorubá, instrumentos de percussão, atabaques, agogôs, afoxés e xequerês. O ritmo da dança na rua é o mesmo dos terreiros, bem como a melodia entoada. Os cantos são puxados em solo, por alguém de destaque no grupo, e são repetidos por todos, inclusive os instrumentistas. Antes da saída do grupo ocorre o ritual religioso (como a cerimônia do "padê de Exu" feita antes dos ritos aos orixás numa festa de terreiro). O afoxé Embaixada da África foi a primeira manifestação negra a desfilar pelas ruas da Bahia, em 1885. 
Com dez mil associados nas ruas, os Filhos de Gandhi e o grupo de afoxé mais tradicional da Bahia.


gandhy_desfile

Dança dos Filhos de Gandhi

O Ijexá, dentro do Candomblé é essencialmente um ritmo que se toca para Orixás, Oxum1 , Osain, Ogum, Logum-edé, Exu, Oba, Oyá-Yansan e Oxalá.  Ritmo suave mas de batida e cadência marcadas de grande beleza, no som e na dança. O Ijexá é tocado exclusivamente com as mãos, os aquidavis ou baquetas não são usados nesse toque, sempre acompanhado do Gã (agogô) para marcar o compasso. O Afoxé Filhos de Gandhi da Bahia, é talvez o mais tenaz dos grupos culturais brasileiros na preservação desse ritmo.


Muito Obrigado Axé

Fontes:
http://revistaescola.abril.com.br/fundamental-2/afoxe-676335.shtml
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ijex%C3%A1

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Mudança do Garcia. O bloco carnavalesco de protesto

Por Assis Ribeiro

O direcionamento da grande mídia para artistas de consumo como Daniela, Chiclete, Cláudia Leite e outros, não permite que muitos tenham conhecimento da real expressão do carnaval de Salvador. São muitas opções desconhecidas deste carnaval multiplo que tem a beleza do Ilê Ayê, do Muzenza, o vale tudo do Mudança do Garcia, a proposta alternativa dos microtrios, e muito mais. Por isso gostaria que o blog desse visibilidade a estes grupos alternativos.
Do i Bahia
Mudança do Garcia leva protesto para a Avenida no penúltimo dia de Carnaval
Jovens e foliões mais experientes se misturaram na passagem de um dos blocos mais tradicionais do Circuito Osmar
p>Insatisfação com os políticos, reclamação contra a demora em obras públicas e até a revolta pela casa nova que ainda não foi entregue... Na Mudança do Garcia vale tudo. O tradicional bloco de rua, que sai do bairro que lhe dá nome e desfila até o Campo Grande atrasou, mas chegou à Avenida com suas famosas faixas de protesto no começo da tarde desta segunda-feira de Carnaval (19).


Atraso na construção do Metrô de Salvador foi tema de protesto no desfile
"Nossa cidade está passado por muitos problemas. Tem que ser assim, e aproveitarmos esse momento que está todo mundo olhando para protestar. Acho importante", disse Elmar Guimarães, que já viveu 68 carnavais e há 15 anos sai da Pituba, onde mora, para se juntar aos amigos no Garcia para a folia misturada ao protesto.
O governos municipal e estadual não escaparam dos cartazes da Mudança, que em 2012 completa 65 anos de participação no carnaval soteropolitano. O atraso do metrô e as recentes mudanças no Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de Salvador (PDDU) estavam entre os principais temas das reclamações.



Fotos: Aline Caravina / iBahia

Festa dos Palhaços do Rio Vermelho

Tem também a deliciosa abertura do carnaval no Rio Vermelho.

Festa dos Palhaços do Rio Vermelho, apresentação do Zambiapunga de Taperoá, dia 11 de fevereiro de 2012, filmado pelo Blog do Rio Vermelho.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Privatização do Carnaval e "Resistência"

O carnaval de Salvador é um evento onde a partir dele se poderia fazer um estudo profundo de como o modelo neoliberal se propõe a privatizar tudo, criando um apartheid, excluindo o próprio espaço público, ruas, praças, praias, do povo.

Não são artistas A, B, ou C responsáveis por retirar da população os seus espaços públicos e sim os próprios órgão públicos.

Por conta disso o carnaval de Salvador se tornou uma festa de não baianos, onde uma parcela expressiva dos moradores da capital baiana – 77,9% – preferem mesmo é escapar  do Carnaval, segundo uma pesquisa realizada por órgãos governamentais(abaixo disponibilizo o link).

Não é verdade que não haja resistência a esta privatização do carnaval.

Muitos artistas, o ministério público e outros setores da sociedade reagem a este apartheid, como já foi objeto de vários Post aqui no blog.

O grupo Armandinho, Dodô e Osmar desfila sem cordas desde a sua formação e criticam este formado de exclusão. Carlinhos Brown já fez uma crítica ácida e agressiva em frente a um  camarote de autoridades, onde estavam presentes governador, prefeito e outras autoridades.

Ele próprio desfila sem cordas e ao contrário de outros se apresenta, na maior parte do tempo, no chão, no asfalto, e não em cima do trio.

Carlinhos Brown também criou o carnaval de protesto ao que está ocorrendo quanto resolveu criar o "arrastão da quarta feira", que é o carnaval sem cordas, que há conta com a adesão dos famosos Olodum, Timbalada, Ivete Sangalo, e outros menos famosos também já aderiram.

O Ministério Público tem tomado a iniciativa de algumas ações questionando este formato  de concessão de espaços públicos.

A reação da sociedade é muito grande e este movimento tem ganhado corpo. Ano passado Saulo Ramos cantor do fortíssimo bloco Eva desfilou um dia sem cordas. Este ano o próprio Chiclete (independente do seu motivo) desfilou, ontem dia 17/02, sem cordas, até a Praça Castro Alves. Outra banda que desfilará na Avenida num trio sem cordas é Jammil e Uma Noites. O grupo sairá no domingo, com a campanha “Pipoca Solidária. É Chique Ser do Bem”.

Margareth Menezes, Luiz Caldas, Moraes Moreira criticam este apartheid e defendem uma outra formatação para o carnaval de Salvador, objeto de alguns Post aqui no blog.

A própria prefeitura de Salvador minimamente cede ao trazer de volta o "Encontro de Trios" da Praça Castro Alves.

Muitas músicas criticam esse apartheid, como a atualíssima "APARTHEID DA ALEGRIA" de (Luiz Caldas e César Rasec)
Chuva de grana, carnaval com capilé
A festa acabou sendo o que é
Estica e puxa na fila pra desfilar
E a pipoca já não brinca sem gastar
No apartheid da alegria
O trio que passa traz a massa
E no camarote, segurança e muito mimo de graça
Dentro do bloco a beijação não traz pirraça
Do outro lado o Pitt Bull só quer brocar
Não se volta no tempo sem respeito à praça
Careta agora é só pra se enfezar
Agora é o abadá, mortalha nunca mais
Pois quando tudo é free sempre se quer mais
E atrás de espaço fica o nobre cidadão
Maluco pra tirar o pé do chão
Ei você aí do camarote, toma uma aí por mim
Porque aqui embaixo é bico seco, agora é assim (bis)
Ei você que tá nessa pipoca, pula um pouco aí por mim
Porque dessa mordomia eu só vou sair no fim

Foruns de discussão são criados, programas de Tv propõem o debate, como a matéria, que incluo no final, exemplifica.

"O modelo atual deu resultado" diriam alguns. Mas, a verdade é que o carnaval de Salvador é sucesso desde a sua origem, como demonstra um Post  aqui no Blog "De Pierre Verger, 'Carnaval Brasil Anos 40'"

Matéria indicada:

"Nos bastidores da gravação do programa "Aprovado", da TV Bahia (afiliada da Rede Globo), em janeiro, a cantora Daniela Mercury fez intervenções cruas sobre o carnaval de Salvador, ao defender sua posição mais próxima ao que se convencionou chamar de Axé. Câmeras desligadas, a conversa correu na informalidade, com divergências claras sobre o modelo da festa. Participavam do debate os músicos Luiz Caldas, Durval Lélys e Saulo Fernandes, o professor Paulo Miguez e o apresentador Jackson Costa.

O estúdio da TV Bahia estava repleto de técnicos e assessores dos músicos. Terra Magazine apurou os bastidores com três dos presentes.

Fora do ar, o professor do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da Ufba, Paulo Miguez, prosseguiu a discussão e afirmou que o Axé Music só teria sido possível com a evolução do trio elétrico nos anos 70, com Moraes Moreira introduzindo o ijexá e com a existência da Tropicália. Nessa hora, Daniela o interrompeu e se declarou de "saco cheio" dessa história. "Caetano (Veloso) e (Gilberto) Gil são do passado", opinou.

Segundo os presentes, houve outros momentos de constrangimento, depois de críticas de um dos participantes ao cantor Bell Marques (do Chiclete com Banana) por ter passado na frente do afoxé Filhos de Gandhy, na Praça Castro Alves, em 2006. Bloco tradicional, fundado por estivadores baianos em 1949, o Gandhy tem historicamente prioridade no desfile. Em respeito, os trios costumavam desligar o som e deixar o "tapete branco" passar. A atitude de Bell Marques foi interpretada como um desrespeito às tradições da festa.

Assim que Miguez terminou uma intervenção, Daniela emendou: "Isso é porque você não sabe o que é ficar seis, sete horas esperando para entrar na avenida, ouvindo aquele cara (do Gandhy) tocar o agogô!". O professor se revelou surpreso por ouvir essas palavras da cantora. "Aquele cara tocando o agogô é a história do carnaval", reagiu Miguez, segundo as fontes ouvidas pela reportagem. Além de comandar um trio, Daniela Mercury organiza um camarote no bairro da Barra.

Duas visões opostas se cristalizaram no debate. Na parte gravada, Durval Lélys se alinhou à postura dos empresários carnavalescos. Luiz Caldas, um dos criadores do Axé, vem se posicionando a favor de mudanças - e até já compôs a canção "Apartheid da Alegria".

No programa exibido em 28 de janeiro, Daniela Mercury opinou: "Na verdade, só existe carnaval por causa da iniciativa privada". "Não é verdade", rebateu Miguez. Nesta parte, o apresentador Jackson Costa interrompeu a discussão: "Nosso tempo é curto. Esse assunto não cabe num programa só. Vocês todos juntos não cabem num programa só. Então, a gente vai encerrar o programa de hoje aqui".

Após o corte, novamente em conversa informal, segundo apurou Terra Magazine, Daniela ouviu que os grandes empresários não bancam, por exemplo, a limpeza, a saúde e a segurança nos circuitos. "Então o melhor é ir embora", teria contraposto a cantora. Caldas ironizou: "Duvido que você largue o osso".
Relatam alguns dos participantes que a conversa de bastidores não foi gravada e por isso não está em nenhum dos blocos do "Aprovado", nos programas transmitidos em 28 de janeiro e 4 de fevereiro. Na TV Bahia, Daniela Mercury criticou o preconceito contra o gênero musical. "Me irrita profundamente quando as pessoas chamam o Axé de ritmo. Gente, o Axé não é um ritmo. O Axé é um gênero musical relacionado ao trio elétrico, nascido no trio elétrico (...) Fazer trio elétrico é dificílimo", defendeu.

A assessoria da cantora se posicionou a respeito da reportagem de Terra Magazine: "Não confirmamos declarações de terceiros sobre o que Daniela teria dito nos bastidores ou nos intervalos de alguma gravação. Daniela já está em parceria com o Terra para cobertura do Carnaval e gravação de entrevistas exclusivas para o Portal, quando responderá sobre questões do Carnaval, com suas reais opiniões, portanto o Terra não precisa recorrer a meios indiretos e pouco confiáveis para ter a opinião de Daniela sobre qualquer assunto."

No início da tarde desta quinta-feira (16), Daniela Mercury enviou uma segunda resposta, por meio de sua assessoria, na qual desmente as declarações atribuídas a ela nesta reportagem. "As declarações atribuídas a mim na matéria não são verdadeiras e estão completamente fora de contexto. Sempre estive disponível para a imprensa e realmente não posso me responsabilizar por declarações atribuídas a mim por terceiros", afirma Daniela no texto.

Confira a nota na íntegra.
"Em resposta a declarações inverídicas e descontextualizadas atribuídas a Daniela Mercury e publicadas no Terra Magazine, a artista declara: 'Caetano e Gil são os 2 artistas brasileiros que eu mais admiro e respeito e que reverencio no meu atual show e DVD Canibália Ritmos do Brasil. São dois grandes artistas que em vários momentos de minha carreira tive o prazer de homenagear e de quem falo sempre em minhas entrevistas.
As declarações atribuídas a mim na matéria não são verdadeiras e estão completamente fora de contexto. Sempre estive disponível para a imprensa e realmente não posso me responsabilizar por declarações atribuídas a mim por terceiros". Daniela Mercury 

Terra Magazine ouviu três dos presentes durante a gravação do programa "Aprovado", da TV Bahia (afiliada da Rede Globo), em janeiro. Todos eles confirmam o teor da conversa, no mesmo contexto em que foi reproduzido na reportagem."

 http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5615895-EI6581,00-Caetano+e+Gil+sao+do+passado+diz+Daniela+Mercury.html
Link com informações da pesquisa:
http://www.atarde.com.br/noticia.jsf?id=5691124

De Pierre Verger, 'Carnaval Brasil Anos 40'

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

NELSON MOTTA: os 60 anos do Trio Elétrico

Carnaval. Década de 50

SOBRE A FESTA

texto de ANTONIO RISÉRIO*
A festa é um fenômeno universal. Está presente em todas as épocas, sociedades, povos e culturas. É por isso mesmo que qualquer manual de antropologia sempre traz verbetes sobre cerimônias e rituais. Sobre a relação entre sacrifícios, oferendas e festas. Sobre a festa como parte do rito. Sobre os aspectos não-rituais e não-religiosos da festa. Sobre música e dança.
A festa é um hiato. É uma saída para fora da história. É uma quebra no encadeamento cotidiano das coisas do mundo. É uma suspensão delirante da rotina. É uma abertura, fenda ou brecha na sequência, na linearidade, no fio lógico da vida individual ou coletiva. São muitas, enfim, as definições, as interpretações que os estudiosos nos oferecem do fenômeno trans-histórico e transcultural da festa. Não raro, fazendo-a derivar do sagrado: a origem da festa estaria na religião, em tempos onde não havia uma separação entre festas sagradas e festas profanas.
Mas não vamos enveredar pelo mundo labiríntico das interpretações da festa. Fiquemos em plano mais simples, mais pedestre. O fato é que não há humanidade sem festa. Sem música, dança e canto. O amor da humanidade pelos floreios da voz e os meneios do corpo data de milênios. Sempre esteve presente em todos os cantos e recantos do mundo. Em todas as partes do planeta. Desse amor, nenhum povo ou comunidade escapou, escapa ou deseja escapar.
Bom exemplo disso são os índios que habitavam os trópicos atualmente brasileiros. Quando os europeus começaram a desembarcar aqui, às primeiras luzes do século 16, ficaram impressionados. Os tupis que circulavam pelos litorais brasílicos tinham, basicamente, duas preocupações: a guerra e a festa. Cabia às cunhas produzir o beiju de cada dia da aldeia. Porque os homens, quando não estavam trocando flechas e tacapadas, promoviam bailes. Com uma diferença fundamental. A guerra era empresa exclusivamente masculina. A festa, não. A festa era de todos.
Pero Vaz de Caminha, aliás, conta um episódio maravilhoso, ocorrido num domingo de abril de 1500, ao sol de Porto Seguro. Um grupo de índios dançava perto do rio, “sem se tomarem pelas mãos”. Diogo Dias meteu-se no meio deles e começou a tocar e dançar, fazendo com que todos se dessem as mãos. E assim se foi formando uma roda de dança, uma festa de mãos dadas, ao som da gaita medieval que ele tocava. Foi a dança do encontro. Neste bom sentido, podemos dizer que sim: o Brasil nasceu dançando.
Os africanos dançavam – e muito – na África Negra. E continuaram dançando do lado de cá do Atlântico Sul. De seus ritmos e coreografias nasceu o samba de roda do Recôncavo, que, por sucessivas estilizações, daria no samba raiado do Rio de Janeiro, uma das forças fundamentais da festa brasileira. Com os nagôs, vieram os orixás, descendo do orum para a Terra. Em dia de festa. É para isso que brilham os terreiros. Não há religião sem festa. Sem festa, os deuses não dançam entre os mortais. E os negros contribuíram ainda, aqui, para a articulação entre festa sagrada e profana. Como na festa do Senhor do Bonfim. No reinado de Iemanjá, na festa do Ano Novo, que se irradiou do Rio para todo o litoral do país. No Círio de Nazaré, o “carnaval devoto”, em torno da Virgem, em Belém do Pará.
Nossas grandes festas públicas, rituais coletivos de teatralização da sociedade, nasceram com essa mescla de sagrado e profano. Eram as festas barrocas dos séculos 17 e 18, que conheceram seu esplendor nas cidades do ouro, em Minas Gerais. Procissões de som e brilho, com carros alegóricos, alas disso e daquilo, ruas decoradas, que forneceram o modelo da grande festa pública brasileira. Especialmente, o modelo do carnaval, esplendorosa procissão neobarroca, como no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro.
Mas nem só de grandes ritos coletivos vive a humanidade. Vive, também, de festas corriqueiras, de bailes “funks” a quermesses de cidades do interior. De um extremo a outro, estende-se a festa brasileira. Porque a festa é universal, mas tem seu modo de se manifestar em cada coletividade. E o nosso modo tem a ver com a nossa configuração cultural e formação genética. Com o nosso ambiente. Com o retrato que gostaríamos de fazer de nós mesmos. Com o nosso gregarismo. Com nosso corpo – e nossa alma.

A volta do carnaval popular.

Essa luta, dos guardiões do carnaval popular como bem definiu Nassif, tem ganhado fôlego e espaço.

Vários outros artistas  entraram nesta luta. Carlinhos Brown há muito tempo coloca seu trio nas ruas, algumas vezes sem corda, ele mesmo sai cantando no asfalto junto com os foliões. Na quarta feira de cinzas ele "puxa o trio" no já tradicional "arrastão de cinzas" que nos últimos anos teve a adesão do trio de Ivete Sangalo. Quarta feira todos arrasados de cansaço e a multidão sem cordas se deliciando nas horas finais do carnaval.

Margareth Menezes também faz o seu carnaval, com e sem cordas.

"O poeta estava chorando, estava triste, mas hoje ele voltou a sorrir com o povo na praça". Com essa frase, Moraes Moreira - primeiro cantor da história do trio elétrico - definiu, no Carnaval 2011, o sentimento de alegria de baianos e turistas com o retorno do tradicional Encontro de Trios. Em frente a estátua do poeta Castro Alves, o compositor de 'Chame Gente' e o vocalista Saulo Fernandes, da Banda Eva, cantaram juntos no último dia de folia momesca – 08 de março. O sucesso foi tanto que eles já confirmaram o repeteco para este ano, com uma novidade: a presença do guitarrista Armandinho Macedo. Este será o terceiro ano consecutivo que os dois artistas retomam a tradicional festa no local."

Ano passado mais uma adesão:

"Em 2011, o Bloco Eva baixou as cordas, no Campo Grande, e seguiu para a Praça Castro Alves. Uma multidão de foliões foi atrás, mostrando como eram os antigos carnavais dos tempos de Dodô e Osmar (os pais da 'Fobica'). O trio saiu em festa repleto de artistas convidados, como o inglês Geoffrey Chambers e o ex-vocalista da Banda Mel, Robson Moraes, deixando muita gente emocionada pelo circuito, indo de encontro ao trio de Moraes Moreira"

O movimento ganha espaço.

Grandes estrelas baianas desfilam sem cordas no Carnaval 2012
Timbalada, Carlinhos Brown, Tuca Fernandes e Chiclete Com Banana farão a festa da pipoca
No embalo das tentativas de revitalização do circuito Osmar (Campo Grande-Carlos Gomes) e, assim, de melhoria na fluidez dos blocos e trios na Barra-Ondina (circuito Dodô), os foliões ganharam um presente para curtir a maior festa popular do mundo. A novidade é que em 2012, grandes estrelas vão baixar as cordas e fazer a alegria da 'pipoca' na Avenida.

Na quinta-feira (16), primeiro dia de Carnaval, quem comanda a festa é a banda Chiclete Com Banana, que fará um encontro especial na Praça Castro Alves, com o grupo Oito7 Nove4. Já no domingo, a Timbalada vai reunir parte de sua formação original: Ninha, Xexeu, Amanda Santiago e Augusto Conceição para fazer a festa do folião pipoca.
O cantor Tuca Fernandes, agora em carreira solo, vai sair sem cordas na segunda-feira, penúltimo dia de festa. E para encerrar a maior festa popular do mundo, o tradicional encontro de trios terá a presença da Banda Eva e do cantor Moraes Moreira.
Segundo o portal Terra, além das atrações já confirmadas, outros artistas como Daniela Mercury e Armandinho também estudam a possibilidade de desfilar sem cordas no circuito Osmar, que foi o primeiro percurso do Carnaval de rua baiano.
http://www.ibahia.com/index.php?id=10&no_cache=1&tx_ttnews[tt_news]=99186

As imagens dizem tudo.

ENSAIO SOBRE O TRIO ELÉTRICO

texto de PAULO COSTA LIMA
Pára o carro Olegário!! Não tá vendo que tá andando de banda? Mas Seu Osmar, o carro já quebrou há muito tempo, é o povo que está empurrando!
O ensaio, como tradição literária, é esforço interpretativo. Mas o que dizer do trio? Tanta espetacularidade requer justificativa? Gostaria de fazer coincidir forma e conteúdo: um breve discurso com três pontas e uma síntese.
A primeira ponta é o frevo. Há uma ligação de umbigo entre trio elétrico e frevo. Dodô e Osmar tiveram a idéia de colocar a tal fubica na rua em 1951. Poucos dias antes, passara por Salvador o Clube Carnavalesco Vassourinhas de Recife, em direção ao Rio.
O frevo traz marcas afro-brasileiras indeléveis. Não tem nada de africano na melodia ou na harmonia, poderia ser tocado até como minueto! Mas os ritmos!!!
As idéias rítmicas impingem aos compassos da Europa acentos e tensões que são tipicamente brasileiros. Imprescindível para o espetáculo. Imagine se funcionaria com valsa? E a malandragem?
Mas aí surge um fino detalhe. E essa é a segunda ponta do argumento.
O carnaval que predominava nas ruas de Salvador até então era o do corso e dos préstitos — o desfile das beldades de elite com fantasias e acenos do alto de carros especialmente preparados para a ocasião.Consta que até ópera italiana rolou no Carnaval. O povo ficava na Barroquinha e na Baixa dos Sapateiros em cordões e afoxés.
Portanto, a presença da fubica, tocando frevo, era uma subversão enorme. E o cerne da subversão era que o frevo colocava como centro das atenções o próprio povo dançando. O corpo que todos têm.
Quem já assistiu à passagem de um trio elétrico trazendo em torno de si todo o repertório humano de um bairro popular saberá do que estou falando. Encantamento total na junção entre música e dança.
O calor e a euforia são tão grandes que alguns tiram a camisa pra rodar por cima da cabeça. Tem casais abraçados, crianças montadas no pescoço dos pais, gente de meia idade, mulheres em grupos, vendedores ambulantes vendendo e dançando, disputa pra ver quem faz a melhor pirueta, e aquele empurrão no meio do bolo… (era assim)
Os ritmos oferecem situações de equilíbrio e desequilíbrio, convocam o gingado — ‘só não vai quem já morreu’.
Portanto, naquela virada de 1951, algo mudava na Bahia do governador Octávio Mangabeira, figura ímpar de nossa vida política. Um ‘momento histórico’ proporcionado pela bolha democrática entre o Estado Novo e a ditadura de 64?
No modelo que daí surge, o espaço público vai ficar mais público. E essa energia vai favorecer uma qualidade musical diferenciada, embalada pelo virtuosismo do frevo, e pela “livre” aventura de botar uma música na boca do povo. Caetano, Tuzé, Moraes, Armandinho… E ecos mais recentes em Brown, Gerônimo e Lelis.
A terceira ponta relembra Manoel José de Carvalho. Para ele, as dinâmicas de rua são construções sociais com enorme peso histórico. Salvador teve 300 anos anteriores de cortejo de rua — com procissões e festas de paróquia.
O aparecimento do trio acaba mobilizando essa memória grupal histórica pela topografia da cidade. O trio se encaixa na dinâmica ancestral construída em torno do andor das procissões. É como se tudo estivesse pronto aguardando sua chegada.
Nos anos seguintes vai ocorrer um processo espetacular (e muito original) de design para a festa, da carroceria de um caminhão até os nossos fulgurantes monstrengos de hoje — grandes palcos ambulantes.
Síntese: Hoje estamos em outro planeta: cordas, cachês e abadás. E mais: camarotes e celebridades. Ganhou-se em gestão, profissionalização e expansão. Perdemos em participação, diversidade e qualidade musical.
As músicas que ganham a mídia não ficam mais no ouvido durante anos, estão congeladas em sua funcionalidade do perímetro das cordas (raras exceções).
Será que o impulso democrático dos últimos anos, essa bolha que esperamos definitiva, vai ter a força e o discernimento para fazer brotar um outro modelo, com novos (e velhos) valores musicais?
Mais do que questão, uma demanda: multiplicar os ganhos (socializando-os) e potencializar a qualidade/diversidade cultural.
*Paulo Costa Lima – Compositor, pesquisador-CNPq, professor da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, membro da Academia de Letras da Bahia

A família Macedo, guardiã do carnaval popular

Semana do carnaval. Uma homenagem à família criadora do trio elétrico, da guitarra baiana e que faz o verdadeiro carnaval popular, sem cordas, sem estratificação. A família Macedo.
André Macedo: voz;
Armandinho: guitarra baiana e voz;
Aroldo Macedo: guitarra baiana;
Betinho Macedo: baixo;
Daniel Macedo: percussão;
Pinguim: bateria;
Junior: teclado;

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Apartheid da Alegria-"Carnaval perde essência para poder lucrar"

Por Goretti 

APARTHEID DA ALEGRIA
(Luiz Caldas e César Rasec)
Chuva de grana, carnaval com capilé
A festa acabou sendo o que é
Estica e puxa na fila pra desfilar
E a pipoca já não brinca sem gastar
No apartheid da alegria
O trio que passa traz a massa
E no camarote, segurança e muito mimo de graça
Dentro do bloco a beijação não traz pirraça
Do outro lado o Pitt Bull só quer brocar
Não se volta no tempo sem respeito à praça
Careta agora é só pra se enfezar
Agora é o abadá, mortalha nunca mais
Pois quando tudo é free sempre se quer mais
E atrás de espaço fica o nobre cidadão
Maluco pra tirar o pé do chão
Ei você aí do camarote, toma uma aí por mim
Porque aqui embaixo é bico seco, agora é assim (bis)
Ei você que tá nessa pipoca, pula um pouco aí por mim
Porque dessa mordomia eu só vou sair no fim
 
Do Terra Magazine
Pai do Axé reconhece "culpa" e lança música contra apartheid
O Pai do Axé, Luiz Caldas, tornou-se um crítico da indústria do Carnaval baiano. Em sua nova música, composta em parceria com César Rasec, lamenta a "chuva de grana" por trás da organização dos foliões de Salvador em camarotes e blocos com abadás. Divisão que, no olhar do músico, arranca a espontaneidade da festa. "O Carnaval perde na essência para poder lucrar na parte financeira", lamenta em entrevista a Terra Magazine.
Saudoso de tempos em que não havia a "farda" que uniformiza os blocos, Caldas se vê como um dos responsáveis pelo mal que ataca. Sua música Fricote, que em 2010 comemorou 25 anos, é considerada o marco inicial do axé. O ritmo passou a embalar trios elétricos e foi o pano de fundo de um processo que tornou o Carnaval mais lucrativo para grandes empresas do entretenimento. Para o músico, tudo terminou por concentrar as atenções da festa em poucos artistas de visibilidade e excluir "profissionais que fazem Carnaval de uma forma tão brilhante".
p>- Eu tenho claro o meu quinhão de culpa nisso. Porque, afinal de contas, eu sou o criador do Axé Music. Antes de mim, era só o frevo. Eu dei uma música nova pra Bahia. E, claro, trouxe também as gravadoras pra os artistas daqui. Com gravadoras ele não lida mais. Afirma que se recusou a "baixar a cabeça" e preferiu a liberdade de compor como quer e disponibilizar suas músicas na internet. Recentemente, lançou em seu site 130 músicas inéditas e pretende seguir trabalhando até que 280 canções estejam no ar.
Sobre a "culpa" pelo apartheid carnavalesco, acrescenta que nunca participou das mudanças na festa baiana.
- Eu toquei durante anos em blocos de graça. Eu tocava para o povo mesmo. Hoje em dia seria impossível alguém ir pro Carnaval tocar de graça, esse romantismo ficou lá atrás.
Em 2012, o cantor e compositor deve sair em um trio elétrico independente, ainda sem data para circular por Salvador.
Terra Magazine - O que motivou sua música sobre o apartheid no Carnaval? É uma canção de protesto?Luiz Caldas - Eu e César Rasec, meu parceiro, começamos a ver a grande transformação que o Carnaval sofreu e vem sofrendo. Vai sofrer outras ainda, nada fica como está. Mas só que a mudança que houve no Carnaval foi muito mais pelo lado financeiro. Não pelo lado da arte, como foi nos anos passados. Antes a coisa modificava pelo jeito de as pessoas dançarem, pelo jeito das pessoas se fantasiarem. Mas de um tempo pra cá virou um grande negócio. E quem realmente criou o Carnaval está sendo deixado de lado. É o folião pipoca. Não chega a ser um protesto, é só um alerta. Não há necessidade de protestar porque eu não sou contra o comércio. Não sou contra ninguém ganhar grana. Mas você não precisa matar a galinha dos ovos de ouro. Porque, neste caso, a galinha dos ovos de ouro pra mim é a alegria, é a espontaneidade do Carnaval. Trocaram a fantasia que a pessoa fazia em casa - como era antigamente - por um pedaço de pano que é o abadá. Ficou todo mundo vestido igual, tipo uma farda. O Carnaval perde na essência para poder lucrar na parte financeira.
Sua música tem um diálogo do folião pipoca com o sujeito do camarote. Você acha que o folião pipoca pode acabar? Está diminuindo a participação do povo?
O Carnaval que mais tem participação popular mesmo é o de Pernambuco, que não modificou seu formato de deixar o folião ele mesmo cuidar da onda, do visual dele. O lance de você cuidar da sua música. Hoje o Carnaval de Salvador é legal, mas eu não consigo compreender muito bem o lance da música eletrônica em cima de um trio elétrico. Você pode ter uma música, mas daí a ter forró em cima do trio... Eu acho interessante quando uma banda que faz Carnaval toca uma música ou outra. Mas trazer assim é uma forma meio estranha. Você acaba tirando profissionais que fazem Carnaval de uma forma tão brilhante.
Você acha que o Carnaval de Salvador deixou de ser espontâneo?
Deixou e está deixando de uma forma muito rápida. A gente tem que ter cuidado porque nossa música sempre teve uma carga de baianidade e negritude muito grande. Aos poucos, eu sinto que isso vem dando espaço pra música norte-americana, com Beyoncé e várias outras. Muitos artistas nossos estão levando por esse lado. Acho que é muito melhor primeiro a gente se preocupar com a música e depois com a coreografia, essas coisas. Porque quem vai dançar mesmo é o povo.
Você faz essa crítica de o Carnaval estar mudando muito e por razões financeiras. Você não acha que também é um dos pais dessa mudança? Com Fricote e o surgimento do Axé, não foi quando a coisa passou a ser mercantilizada de uma certa forma?
Sim, eu tenho claro o meu quinhão de culpa nisso. Porque, afinal de contas, eu sou o criador do Axé Music. Antes de mim, era só o frevo. Era esse Carnaval que estou dizendo. E quando eu cheguei o Carnaval ficou mais democrático musicalmente. Eu vim do baile, por isso que criei o axé. Porque eu queria poder tocar de vez em quando um rock, um samba. E o trio elétrico era basicamente frevo. A gente tinha nossa invenção genuinamente baiana, o trio elétrico, mas utilizava música de outro Estado. Eu dei uma música nova pra Bahia. E, claro, trouxe também as gravadoras pra os artistas daqui. Mas se você for olhar a mudança do Carnaval, eu não participei. Porque eu toquei durante anos em blocos de graça. Eu tocava para o povo mesmo. Hoje em dia seria impossível alguém ir pro Carnaval tocar de graça, esse romantismo ficou lá atrás.
Você também jamais poderia prever isso, não?
É impossível prever esse tipo de coisa. Hoje em dia algumas pessoas fazem esse tipo de trabalho querendo prever no que vai dar, mas não dura. Não serve pra uma carreira, vira um cometa que passa e tchau. Então, é muito difícil pensar isso e encarar o meu trabalho. Pensei sempre em ter uma carreira longa com música. Por esse motivo, nunca baixei minha cabeça em reuniões com gravadoras. Já quiseram modificar o meu estilo, mas eu não podia fazer isso. Eu carregava ali a música da Bahia. Depois de Caetano, Gil, Gal e Bethânia, eu era o grande representante. Graças a Deus eu consegui bater o pé sempre e fazer com que a minha carreira... Poxa, estou fazendo quase 42 anos de música já.
Como você está vendo a construção de um camarote numa praça pública de Salvador? (A obra na orla do bairro de Ondina foi alvo de protestos organizados pela internet contra o prefeito João Henrique).
Eu sou totalmente contra usar qualquer espaço público e torná-lo privado. A praça é do povo. Quem quiser fazer seu camarote, que pegue um lugar fechado, alugue e faça. Usar a ferramenta que o povo tem, a praça, acho uma loucura. Já está tudo apertadinho aqui.
Como vai ser o seu Carnaval este ano?
Estamos homenageando Jorge Amado este ano. E eu faço parte desse universo dele através da novela Tieta, da música. Então, com certeza vou cantar Tieta em homenagem a Jorge Amado num trio independente por aqui. Toco aqui uns três dias, na Barra e no Campo Grande, e depois viajo pra Pernambuco e Rio Grande do Norte.