Copa do Mundo cria êxtase libertador que espanta nosso vazio existencial
Folha de São Paulo
O futebol é o palco mágico onde a nossa loucura ganha permissão oficial para existir e reinar absoluta no meio da rua.
Durante um mês, a cada quatro anos, grande parte do planeta entra em um acordo silencioso e decide que a vida de 11 homens correndo atrás de uma esfera sintética é a coisa mais importante do universo. No fundo, talvez seja mesmo a única coisa que faça sentido.
O apito inicial do juiz não marca apenas o começo de uma partida, mas decreta a suspensão temporária e gloriosa da realidade objetiva. Os boletos a pagar, o trânsito engarrafado, as decepções amorosas e as crises políticas desaparecem como fumaça levada pelo vento, onde o destino pode ser reescrito em uma fração de segundo por um chute torto ou por um milagre inesperado.
Olhamos para o campo e não vemos apenas rapazes de 20 e poucos anos com cortes de cabelo esquisitos. Vemos heróis míticos carregando o peso das nossas próprias esperanças cansadas. O craque que dribla três adversários e chuta no ângulo faz exatamente aquilo que gostaríamos de fazer no dia a dia.
Vibramos com ele como se a glória fosse nossa porque, naquele instante, a glória é realmente nossa e de mais ninguém. Exigimos dele uma perfeição absurda que nós mesmos nunca alcançamos e ficamos furiosos quando ele erra um passe simples, esquecendo convenientemente que ele também é feito de carne e osso, medo e noites maldormidas.
No banco de reservas, o técnico assume o papel daquele pai sábio e onipotente que tem a resposta para todos os problemas do mundo moderno. Queremos que ele tenha a palavra exata no vestiário capaz de curar feridas antigas e a magia necessária para transformar um grupo de rapazes assustados em uma legião de guerreiros imbatíveis.
Se o time ganha, ele é um gênio incompreendido que enxergou o que ninguém mais viu. Se o time perde, ele é o culpado por todas as nossas tristezas acumuladas desde a infância. Não existe meio-termo nessa paixão desmedida que queima a nossa paciência e nos faz gritar com a televisão como se o homem pudesse nos ouvir através da tela.
E, quando o time entra em campo, deixamos de ser indivíduos solitários perdidos em uma rotina cansativa e repetitiva que nos esmaga de segunda a sexta. O sujeito engravatado abraça o desconhecido suado na arquibancada, e a vizinha tímida grita palavrões impublicáveis na janela do apartamento.
A solidão desaparece e dá lugar a um corpo único que respira, sofre e canta em uníssono. A camisa da seleção vira a nossa verdadeira pele, e o hino nacional cantado a plenos pulmões é a nossa oração de guerra.
Torcer contra o rival é uma delícia libertadora e quase terapêutica que nos poupa anos de divã. É a chance perfeita de jogar no outro tudo aquilo de que não gostamos em nós mesmos e que fingimos não ver no espelho.
É uma batalha de mentirinha em que ninguém se machuca de verdade, mas na qual o orgulho de milhões de pessoas entra em jogo a cada dividida de bola. O futebol permite que a gente libere os nossos instintos mais primitivos de um jeito lúdico e inofensivo. Uma guerra sem balas e sem trincheiras lutada com canções provocativas e bandeiras tremulando ao vento e rezas silenciosas para que o atacante adversário tropece nas próprias pernas de forma humilhante.
O gol é o clímax absoluto dessa jornada épica e imprevisível. No momento exato em que a bola estufa a rede, o tempo simplesmente para de existir. Nesse grito rasgado que arranha a garganta, o nosso eu individual se dissolve completamente e nós viramos pura energia pulsante espalhada pelo ar.
É um êxtase coletivo que espanta o vazio existencial e nos faz sentir vivos de um jeito absurdo e incontrolável. É a prova definitiva de que o caos e o sofrimento angustiante dos 90 minutos podem ser transformados em uma ordem cósmica perfeita e absurdamente bela.
Mas a derrota traz um luto pesado e silencioso que cobre as ruas como uma neblina fria e implacável. A eliminação em uma Copa do Mundo não é uma frustração qualquer que se esquece no dia seguinte com uma xícara de café forte. A esperança morre ali no gramado, e somos obrigados a voltar para a realidade dura e cinzenta da segunda-feira sem a armadura da ilusão.
Vivenciamos uma tristeza profunda porque perdemos a magia que nos unia e nos fazia acreditar que éramos invencíveis contra as dores do mundo. O tombo dói na alma porque a queda de um herói nos lembra da nossa própria fragilidade humana e da nossa incapacidade de controlar o destino.
Hoje, os grandes jogadores vivem como divindades intocáveis, cercados de luxo, fama e contratos bilionários que desafiam a imaginação. Moram em castelos de vidro e parecem cada vez mais distantes da nossa realidade suada. Ganham em um mês o que a maioria nem em 20 vidas inteiras de trabalho duro e honesto ganharia.
O jogador deixou de ser um de nós que deu certo e passou a ser uma marca global polida e plastificada que não pode errar, ficar triste e envelhecer nunca. Ele é obrigado a sorrir para as câmeras e esconder os seus defeitos a qualquer custo, blindado por empresários e assessores de imagem.
Quando a falha humana inevitavelmente aparece em um pênalti isolado ou em um escândalo qualquer, a nossa decepção é gigantesca, porque percebemos atônitos que o nosso deus de chuteiras sangra e chora exatamente como nós.
É exatamente por isso que a Copa do Mundo continua sendo tão fascinante e absolutamente necessária para a nossa sanidade. Ela é o último grande ritual de igualdade que nos resta neste planeta fragmentado e polarizado.
Waldemar Magaldi Filho
Analista junguiano, mestre e doutor em ciências da religião e fundador do IJEP (Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa). Autor de "Dinheiro, Saúde e Sagrado