Fernando Gomes
Vivemos uma era em que a mente parece nunca descansar. A enxurrada de informações, o excesso de estímulos digitais, a necessidade constante de produtividade e a pressão por desempenho nos colocaram em um estado de vigília permanente.
Não é de surpreender, portanto, que cada vez mais pessoas relatem sintomas como irritabilidade, lapsos de memória, falta de concentração e um cansaço que não se resolve nem com uma boa noite de sono. Esse fenômeno tem nome: fadiga mental.
Ao contrário do cansaço físico, que é perceptível nos músculos e no excesso de sono, por exemplo, a fadiga mental se manifesta no funcionamento do cérebro — especialmente nas regiões responsáveis por aspectos como atenção, memória de trabalho e controle emocional.
O córtex pré-frontal, localizado atrás da testa, é um dos primeiros a sofrer quando o cérebro está sobrecarregado. É ele quem executa tarefas complexas, como tomada de decisão, planejamento e autocontrole. Sob fadiga, essa região reduz sua atividade, e o resultado é um funcionamento mais lento, reações impulsivas e dificuldade para manter o foco.
Pesquisas em neuroimagem mostram que, durante longos períodos de esforço cognitivo, há um acúmulo de adenosina, um neurotransmissor que sinaliza ao cérebro que é hora de descansar. Esse mesmo mecanismo explica a sonolência após horas de estudo ou trabalho intenso. Além disso, a exposição contínua a telas e notificações ativa o sistema dopaminérgico de recompensa, criando um ciclo de hiperestimulação seguido de queda abrupta — o que aumenta a sensação de exaustão mental e emocional.
Mas a fadiga mental não é apenas desconforto. Quando crônica, ela pode ter consequências sérias.
Estudos associam esse estado à diminuição da neuroplasticidade, ou seja, à capacidade do cérebro de criar novas conexões e aprender.
Também há evidências de que a fadiga prolongada eleva os níveis de cortisol, o hormônio do estresse, contribuindo para distúrbios do sono, ansiedade e até comprometimento imunológico.
A mente cansada, portanto, não afeta apenas o desempenho cognitivo — ela abala o equilíbrio integral do corpo.
Reconhecer os sinais é o primeiro passo para evitar um colapso mental. Dificuldade de concentração, erros frequentes, sensação de “cabeça pesada”, insônia e perda de prazer em atividades que antes eram satisfatórias indicam que o cérebro está pedindo pausa.
Diferente do que muitos pensam, não é o esforço em si que causa dano, mas a ausência de recuperação. Assim como um atleta precisa de repouso entre treinos, o cérebro também exige períodos de descanso para consolidar informações e se reorganizar.
Como reverter a fadiga mental
Se você sente que passa por isso, calma. Eu tenho uma boa notícia: existem formas cientificamente comprovadas de restaurar a energia mental e elas são simples de serem feitas.
Um exemplo clássico e muito eficiente é dormir. Afinal, é durante o sono profundo que o cérebro elimina metabólitos tóxicos e reorganiza memórias. Outra dica bem simples é se mexer. Atividades físicas aeróbicas, como caminhar ou dançar, aumentam o fluxo sanguíneo cerebral e estimulam a liberação de endorfinas e dopamina, favorecendo o equilíbrio emocional.
Já a prática da atenção plena (mindfulness) e a respiração consciente ajudam a reduzir a hiperatividade do sistema límbico, responsável pelas respostas de estresse. É aquela ideia simples de tentar estar sempre no “aqui e agora”, sem deixar vagar o pensamento para o que já foi ou para o que está por vir.
Outro ponto essencial é aprender a gerenciar estímulos. O excesso de informação consome energia cognitiva como um “ruído” constante. Tente, então, desligar notificações, alternar períodos de foco com intervalos regulares e buscar momentos de silêncio. São atitudes simples que produzem grande impacto.
O cérebro precisa de vazio para criar, de pausa para consolidar e de tédio para reinventar.
Em um mundo acelerado, descansar é um ato de inteligência biológica. O cérebro humano, com seus 86 bilhões de neurônios, consome cerca de 20% da energia corporal (mesmo em repouso). Isso significa que pensar cansa – literalmente. Mas também significa que cuidar da mente é zelar pela nossa principal ferramenta de sobrevivência.
Como neurocirurgião e neurocientista, vejo diariamente os efeitos do esgotamento mental em diferentes faixas etárias — de estudantes exauridos por maratonas de estudo a profissionais que perderam o prazer pelo próprio trabalho. Sem falar no crescimento absurdo de burnout.
Lembre-se de que o cérebro é um órgão de alta performance, mas não é uma máquina. Ele precisa de manutenção, limites e intervalos para continuar operando em seu potencial máximo.
Em tempos de sobrecarga digital e emocional, talvez o maior desafio seja reaprender a parar. Não para fazer menos, mas para pensar melhor. Vale lembrar ainda que as jornadas de trabalho exaustivas não são sinônimo de alta performance — são, na verdade, o caminho mais rápido para o colapso cognitivo e emocional. O cérebro humano não foi projetado para operar em modo contínuo, sem pausas ou tempo de recuperação.
Em um mundo em que a exaustão virou símbolo de dedicação, é urgente repensar em como fortalecer a produtividade sustentável, já que o cérebro, ao contrário do resto do corpo, não dá sinais visíveis de exaustão. A não ser que esteja no limite – mas daí já pode ser tarde demais.
Matéria completa:
https://www.estadao.com.br/saude/descansar-o-cerebro-e-ato-de-inteligencia-biologica-saiba-como-restaurar-a-energia-mental/