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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Pós-Verdade

Pós-Verdade. A nova guerra dos fatos
1968 teve início a grande revolução da Liberdade pessoal e o desejo pelo progresso social. 2016 com a vitória de Trump marca a era da Pós-Verdade de forma definitiva. As instituições democráticas estão sendo abaladas por essa onda de populismo. A racionalidade é substituída pela emoção; a diversidade, pelo nativismo e a liberdade pela autocracia.

O buraco existencial do início do século 21 levou o mundo a precisar de histórias e podemos até ser programados para criá-las. Assim surge o Fake News, o mundo da Pós-Verdade.

No cerne dessa tendência global está o desmoronamento do valor da verdade.
Foi em 2016 que o Oxford Dictionaries escolheu ,"pós-verdade" como sua palavra do ano definindo-a como:
"circunstâncias em que os fatos objetivos são menos influentes em formar a opinião pública do que os apelos à emoção e a crença pessoal".

A vitória na pós-verdade é alcançada por aqueles cujo desempenho apresenta uma "baixeza amorfa" junto com a "imagem sempre distrativa de resmungão", confabulando sem fim sobre seu "desprazer"; o espectador se diverte com a "magniloquência emocional" e com a afetação máxima e frequentes daqueles que pretendem conduzir os rebanhos. Tudo direcionado para um público que "consome entretenimento" em vez da busca de um pensamento civicamente engajado, com suas prioridades de projetos de solução de problemas o que se quer (o que prevalece) é o show business.

Não importa mais a verdade, a emoção deve prevalecer no mundo do jogo. E, nesse sentido, a fúria, a impaciência e a atribuição de culpa prevalecem nas cenas diárias.

A novidade desse momento da pós-verdade não é a mentira em si, mas a resposta do público a isso. A indignação está dando lugar à diferença e, por fim, a conivência. 

A Pós-Verdade reduz o debate algo próximo a um videogame. É tudo uma questão de escolha de times, intensidade de sentimentos e escalada dos insultos. É a essência do puro espetáculo. E isso é divertido muitas vezes. Contudo, não é sem consequências, como a cultura brincalhona da mídia social costuma nos surgir. Conspiramos, involuntariamente ou não, na desvalorização da verdade.

Na essência da cultura da Pós-Verdade, a força popular depende não da evidência, mas do sentimento. 

Trechos extraídos do livro "Pós-Verdade. A Nova Guerra Contra os Fatos em Tempos de Fake News", de Matthew D'Ancona.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

A dança cósmica de Shiva

A metáfora da dança cósmica encontrou sua expressão mais bela e profunda no hinduísmo, na imagem do Deus dançarino Shiva.

A dança de Shiva simboliza não apenas os ciclos cósmicos de criação e destruição, mas também o ritmo diário de nascimento e morte, visto no misticismo indiano como a base da existência.

Ao mesmo tempo, Shiva lembra-nos que as múltiplas formas do mundo são "maya" -  não fundamentais mas ilusórias e em permanente mudança - na medida em que segue criando-as e dissolvendo-as no fluxo incessante de sua dança.

Nas palavra de Heinrich Zimmer:
"Seus gestos selvagens e cheios de graça precipitam a ilusão cósmica; seus braços e pernas ondeantes e o balanço do seu torso produzem - na verdade, são - a continua criação-destruição do universo, a morte equilibrando exatamente o nascimento, o aniquilamento como fim de tudo aquilo que veio à existência.

Os artistas indianos do século X e XII representaram a dança cósmica de Shiva em magnífica esculturas de bronze de figuras dançantes, com quatro braços, cujos gestos soberbamente equilibrados e, não obstante, dinâmicos expressam o ritmo e a unidade da Vida.

Os diversos significados da dança são transmitidos pelos detalhes dessas figuras através de uma complexa alegoria pictórica.

A mão direita superior do deus segura um tambor que simboliza o som primordial da criação; a mão esquerda superior sustenta uma língua de chama, o elemento da destruição.

O equilíbrio das duas mãos representa o equilíbrio dinâmico entre a criação e destruição do mundo, acentuado ainda mais pela face calma e indiferente do Dançarino no centro das duas mãos, no qual a polaridade entre criação e destruição é dissolvida e transcendida.

A segunda mão direita ergue-se no gesto que significa "não tenha medo", expressando manutenção, proteção e paz; por sua vez, a mão esquerda remanescente aponta para baixo, para o pé erguido e que simboliza a libertação da fascinação de "maya".

O Deus é representado dançando sobre o corpo de um demônio, símbolo da ignorância do homem e que deve ser conquistado antes que seja alcançada a libertação. A dança de Shiva é "a imagem mais clara da atividade de Deus de que se pode se vangloriar qualquer arte ou religião". A dança de Shiva é "o universo que dança", o fluxo incessante de energia que permeia uma variedade infinita de padrões que se fundem um nos outros.

sábado, 20 de julho de 2019

Do livro, "A corporação"

A captura reguladora é o termo cunhado pelo economista George Stigler para descrever a dominação das corporações sobre as agências reguladoras. Muitas Corporações desobedecem as leis reguladoras confiante de que não serão pegas ou de que, se forem, os benefícios financeiros provenientes da desobediência serão maiores do que os custos do processo contra ela. As agências reguladoras em geral não têm funcionários suficientes, não prestam contas, são povoadas por burocratas - muito deles provenientes das indústrias que agora regulam -  que se vêem como parceiros em vez de supervisores.

As corporações não têm que prestar conta nenhuma (...). Uma das razões pelas quais a propaganda tenta fazer com que se odeie o governo é o fato de ele ser a única instituição existente da qual as pessoas podem participar de alguma forma e, assim, restringir os poderes tirânicos que não precisam apresentar explicações.

As corporações não são instituições democráticas - seus diretores e gerentes não devem prestar contas a ninguém a não ser aos acionistas que os empregam. A crença de que a bondade corporativa e a responsabilidade social podem e devem ser alcançadas pela força do mercado, a ponto de regulações do governo se tornarem desnecessárias, tem como base o perigoso desprezo pela importância da democracia. Os governos democráticos apesar de todos os seus defeitos são, pelo menos em teoria, responsável por toda a sociedade.

A corporação, acima de tudo, foi deliberadamente criada para ser um psicopata: apenas interessada em si mesma, incapaz de se preocupar com os outros, amoral e sem consciência - em outras palavras, desumana - e o objetivo único é o lucro.

sábado, 22 de junho de 2019

A tentação dos absolutos

Por Rubem Alves.

De tudo o que Dostoiévski escreveu em Os irmãos Karamazov; o que mais me impressionou foi o relato sobre o “Grande Inquisidor”. Jesus havia voltado à terra e andava incógnito entre as pessoas. Todos o conheciam e sentiam o seu poder, mas ninguém se atrevia a dizer o seu nome. Não era necessário.

O Grande Inquisidor o observava de longe, no meio da multidão, e ordena que ele seja preso e trazido à sua presença. Então, diante do prisioneiro silencioso ele profere a sua acusação.

Por que deveria qualquer pessoa, inflexivelmente convencida da verdade exclusiva dos seu conceitos relativos a qualquer e a todas as questões, estar pronta para tolerar idéias opostas? Que bem ela pode esperar de uma situação em que cada um é livre para expressar opiniões que, segundo o seu julgamento, são patentemente falsas e, portanto, prejudiciais à sociedade?

Por que direito deveria ela abster-se de usar quaisquer meios para atingir o alvo que julga correto? Em outras palavras: consistência total equivale, na prática, ao fanatismo, enquanto a inconsistência é a fonte da tolerância.

[…] Temos de notar que a humanidade tem sobrevivido somente graças à inconsistência […] a raça das pessoas inconsistentes continua a ser uma das maiores fontes de esperança de que a espécie humana conseguirá, de alguma forma, sobreviver.

Leszek Kolakowski, “Em louvor à inconsistência”.

A tentação dos absolutos é uma característica universal do espírito humano. Todos queremos possuir a verdade. E para possuir a verdade é preciso que se a engaiole. E para engaiolar a verdade é necessário engaiolar a liberdade e o pensamento….

Todos aqueles que se julgam possuidores da verdade são inquisidores. Leszek Kolakowski, filósofo polonês que viveu sob o comunismo, experimentou isso na sua própria vida. São dele as palavras que transcrevo a seguir:

Não há nada mais sedutor aos olhos dos homens do que a liberdade de consciência, mas também não há nada mais terrível. E em lugar de pacificar a consciência humana de uma vez por todas, mediante sólidos princípios, tu lhes ofereceste o que há de mais estranho, de mais enigmático, de mais indeterminado, tudo o que ultrapassava as forças humanas, a liberdade.

Agiste, pois, como se não amasses os homens. […] Em vez de te apoderares da liberdade humana, tu a multiplicaste e, assim fazendo, envenenaste com tormentos a vida do homem, para toda a eternidade…

O Grande Inquisidor estava certo. Ele conhecia o coração dos homens. Os homens dizem amar a liberdade, mas de posse dela são tomados por um grande medo e fogem para abrigos seguros. A liberdade é amedrontadora.

Os homens são pássaros que amam o vôo, mas têm medo de voar. Por isso abandonam o vôo e se protegem em gaiolas.

Somos assim. Sonhamos o vôo, mas tememos as alturas. Para voar é preciso amar o vazio. Porque o vôo só acontece se houver o vazio. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Os homens querem voar, mas temem o vazio. Não podem viver sem certezas. Por isso trocam o vôo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.

É um engano pensar que os homens seriam livres se pudessem, que eles não são livres porque um estranho os engaiolou, que se as portas das gaiolas estivessem abertas eles voariam. A verdade é o oposto. Os homens preferem as gaiolas ao vôo. São eles mesmos que constroem as gaiolas onde passarão as suas vidas.

“Prisioneiro”, dize-me, quem foi que fez essa inquebrável corrente que te prende?”, perguntava Tegore. “Fui eu”, disse o prisioneiro, “fui eu que forjei com cuidado esta corrente”.

Vivi, durante muitos anos, numa gaiola de palavras. Eu gostava dela. Não me sentia engaiolado. Sentia-me protegido. Minha gaiola era minha armadura. Quando as gaiolas são feitas de ferro é fácil perceber a prisão. Os prisioneiros sonham o tempo todo com fugas.

Mas há gaiolas que não são feitas com ferro. São feitas com palavras. As gaiolas de ferro nos prendem por fora. As gaiolas de palavras nos prendem por dentro. 

[…]

A obsessão com a verdade que caracteriza isso a que dei o nome de Protestantismo da Reta Doutrina não é coisa típica do protestantismo. Ela se manifesta nas mais variadas formas de associação humana.

A invocação da “verdade” é o instrumento de que se valem os inquisidores, nas suas múltiplas versões, para matar – ou silenciar – aqueles que têm idéias diferentes das suas. 

Rubem Alves
Introdução do livro “Religião e Repressão”

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Trilogia Divergente, Convergente e Insurgente

Em uma Chicago futurista, toda a sociedade foi dividida em cinco grupos de pessoas, denominados de facções. Existem cinco facções e cada uma delas dedica-se ao cultivo de uma virtude em especial:

Abnegação (Altruísmo);

Amizade (Generosidade);

Audácia (Coragem);

Franqueza (Sinceridade);

Erudição (Inteligência).

Cada uma das cinco facções trabalham em um setor diferente da cidade, ajudando em sua manutenção.

Todos os habitantes da cidade, quando chegam aos dezesseis anos, são submetidos ao Teste de Aptidão, que os ajudará a escolher a facção que melhor corresponde com sua personalidade e verdadeira natureza humana. Em seguida participam da Cerimônia De Escolha, onde os jovens devem decidir a que grupo querem se unir para passar o resto de suas vidas - podendo permanecer em sua facção de origem ou abandoná-la para sempre.

Para Beatrice Prior (protagonista e narradora onisciente), a difícil decisão é entre ficar com sua família ou ser quem ela realmente é — não podendo ter os dois. Então faz uma escolha que surpreende a todos, inclusive ela mesma, quando decide se transferir da Abnegação (sua facção original) para a facção dos corajosos, a Audácia.

Durante o processo de Iniciação altamente violento e competitivo que se segue, Beatrice Prior muda seu nome para "Tris" e esforça-se para decidir quem são realmente seus amigos — e onde se encaixa em sua nova vida. Tris conhece um rapaz chamado Quatro/Tobias, que é seu Instrutor de Iniciação. Tris acaba revelando fortes sentimentos por ele. Quatro/Tobias é, ao mesmo tempo, um rapaz perturbador e cheio de segredos.

Mas Tris também tem um segredo, que mantêm escondido de todos, pois poderia significar sua morte: Ela é Divergente - apresenta aptidão para mais do que uma facção, nas quais são abnegação, audácia e erudição. Isso a torna uma ameaça em potencial, pois aqueles que não se encaixam em apenas uma facção não podem ser manipulados ou persuadidos, ameaçando assim o sistema estabelecido. Portanto, todas as pessoas que apresentam divergência devem ser exterminados.

Ao descobrir um terrível plano da Erudição e da Audácia de dominar o Conselho Governamental da cidade, assumir a liderança das facções e de destruir sua facção de origem, a Abnegação, ela aprende que seu segredo pode ajudá-la a salvar aqueles que ama… ou destruí-la.

A raposa e o Pequeno Príncipe

A raposa olhou fixamente para o Pequeno Príncipe durante muito tempo e disse:

- "Por favor cativa-me."
- "O que eu devo fazer para cativar você?", perguntou o Pequeno Príncipe.

- "Você deve ser muito paciente", disse a raposa. "Primeiro você vai sentar a uma pequena distância de mim e não vai dizer nada. Palavras são as fontes de desentendimento. Mas você se sentará um pouco mais perto de mim todo dia."

No dia seguinte o principezinho voltou.
- "Teria sido melhor voltares à mesma hora", disse a raposa. "Se tu vens por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens por exemplo a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso ritos".

Então o Pequeno Príncipe cativou a raposa e depois chegou a hora da partida dele.
- "Oh!", disse a raposa. "Eu vou chorar".
- "A culpa é sua", disse o Pequeno Príncipe, "mas você mesma quis que eu a cativasse".
- "Adeus", disse o Pequeno Príncipe.
- "Adeus", disse a raposa. "E agora eu vou contar a você um segredo: nós só podemos ver perfeitamente com o coração; o que é essencial é invisível aos olhos. Os homens têm esquecido esta verdade. Mas você não deve esquecê-la. Você se torna eternamente responsável por aquilo que cativa."

O Pequeno Príncipe.
Antoine de Saint Exupéry.

“Exatamente, disse a raposa. Para mim tu não és nada, senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo…”

O Pequeno Príncipe
Antoine de Saint-Exupéry


sexta-feira, 13 de julho de 2018

Ética a Nicômaco

Ética a Nicômaco

O livro intitulado "Ética a Nicômaco" é da autoria de Aristóteles e foi dedicado ao seu pai, cujo nome era Nicômaco. Esta é a principal obra de Aristóteles sobre Ética e é constituída por dez livros, onde Aristóteles é como um pai que está preocupado com a educação e felicidade do seu filho, mas também tem por objetivo fazer com que as pessoas pensem sobre as suas ações, colocando assim a razão acima das paixões, procurando a felicidade individual e coletiva, porque o ser humano vive em sociedade e as suas atitudes devem ter em vista o bem comum. Nas obras aristotélicas, a ética é vista como parte da política que precede a própria política, e está relacionada com o indivíduo, enquanto que a política retrata o homem na sua vertente social.

Para Aristóteles, toda a racionalidade prática visa um fim ou um bem e a ética tem como propósito estabelecer a finalidade suprema que está acima e justifica todas as outras, e qual a maneira de alcançá-la. Essa finalidade suprema é a felicidade, e não se trata dos prazeres, riquezas, honras, e sim de uma vida virtuosa, sendo que essa virtude se encontra entre os extremos e só é alcançada por alguém que demonstre prudência.

Esta obra foi muito importante para a história da filosofia, uma vez que foi o primeiro tratado sobre o agir humano da história.

Extraído do site
https://www.significados.com.br/etica/

quinta-feira, 28 de junho de 2018

"O Lobo da Estepe"

"Todas essas pessoas têm duas almas, dois seres em seu interior, há neles uma parte divina e outra diabólica, o sangue da mãe e do pai, a capacidade de felicidade e sofrimento, estão amarradas de modo tão apertado e indissolúvel como o lobo e o homem dentro de Harry".

Trecho de "O Lobo Da Estepe",
de Hermann Hesse

"O Lobo da Estepe"

"Todas essas pessoas têm duas almas, dois seres em seu interior, há neles uma parte divina e outra diabólica, o sangue da mãe e do pai, a capacidade de felicidade e sofrimento, estão amarradas de modo tão apertado e indissolúvel como o lobo e o homem dentro de Harry".

Trecho de "O Lobo Da Estepe",
de Hermann Hesse

quarta-feira, 20 de junho de 2018

O duplo,

No filme Cisne Negro, a personagem Nina, vivida por Natalie Portman, é uma abnegada bailarina que, segundo o diretor artístico da companhia, possui disciplina e técnica, mas carece de emoção e intensidade dramática para encarar um papel mais denso. Mesmo assim, o diretor artístico se propõe a fazer uma montagem para "O Lago dos Cisnes" de Tchaikovsky, na qual a bailarina principal fará o papel de dois cisnes, um branco e outro negro.

A leitura de Vicent Cassel, na pele do diretor artístico, pretende encenar é a disparidade de impulsos e sentimentos que animam e inflamam o ser. Nina, a disciplinada bailarina, parece ter sérias dificuldades para externar seu "cisne negro"; paralelamente a personagem apresenta uma união sufocante, infantilizada, com sua mãe que a deixa em uma redoma de disciplina e determinação exasperante. Dentre várias bailarinas da companhia, o diretor a escolhe e começa a provocar, a incitar, o lado negro, a capacidade dramática que sai mediante tropeços e esgares da personagem, pois Nina almejava avidamente um papel principal, preparava-se para isso, mas soterrava sua emoção, como observa o diretor.

Durante o processo de ensaios e construção do papel, Nina passa a se defrontrar de modo quase alucinatório com aspectos do seu ser que a atormentavam e provocam mudanças em si e em sua relação com sua mãe. Chega a se ver duplicada, o que causa nela inequívoco sentimento de algo estranho, inquietante, sendo que seu duplo, ao encarnar o lado negro e sombrio, precisava ser vivenciado para quem Nina atingisse a intensidade dramática necessário ao papel do cisne negro.

A dócil Nina parece se defrontar com o que estava soterrado sob sua circunspecta dedicação ao balé vindo à tona o seu lado humano e sua sexualidade até então recalcada em seu psiquismo e oprimida por sua mãe.
(...)
O escritor Dostoiévski escreveu em 1846 uma novela intitulada O Duplo, na qual narra as desventuras de um austero funcionário público, o senhor Goliádkin, que inesperadamente vê o surgimento do seu duplo, outro senhor Goliádkin, o que traz pavor - a sensação de algo estranho, angustiante. Inicialmente este inusitado encontro é misto de estranhamento e curiosidade entre Goliádkin e seu duplo. O senhor Goliádkin, que se orgulhava de sua posição como funcionário público, conservava suas pequenas vilanias diárias sob a máscara da respeitabilidade em suas relações. Eis que aí surge o duplo do senhor Goliádkin e começa a tomar o lugar dele na repartição, e. suas relações etc. O duplo começa a expor o senhor Goliádkin e tomar sua posição na repartição, agindo de modo atroz e desleal, o que leva Goliádkin a ficar em frangalhos e indefeso à ação do seu duplo, que expunha o lado abjeto e mesquinho que estava velado sob a pusilânimidade do senhor Goliádkin que,  ao final, fica arruinado. Inúmeros Goliádkin e suas duplicatas hão de infestar repartições, solenidades e toda sorte de encontros sociais até o fim dos tempos".

Trechos do livro:
"Do Bunker Provinciano Ao Fabulário Tropical" 
de André Ribeiro Albuquerque.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

O indivíduo, esse fantoche moderno

Nelson Rodrigues, em uma crônica intitulada "os idiotas sem modéstia" crítica precisamente a proliferação de indivíduos que repetem a esmo ideias políticas, culturais etc e dispara: "o sujeito morre e mata por ideias, sentimentos, ódios que lhe foram injetados. Pensam por nós, sentem por nós,  gesticulam por nós".
(...)
O indivíduo, esse fantoche moderno, não se cansa de repetir máximas televisivas, cibernéticas, sobre política, saúde e comportamento etc. O lugar comum é celebrado como um conhecimento seguro; o excesso de informação asfixia o livre pensamento -  o questionamento quanto à aceitação do que é "diferente" se tornou quase uma blasfêmia; (...) - às avessas, surge do discurso de cunho higienista. O culto à técnica e às verdades científicas transformou o indivíduo, paradoxalmente, em um ignorante bem informado e devidamente graduado".

Trecho do livro "Do Bunker  Provinciano Ao Fabulário Tropical", de Andrei Ribeiro Albuquerque.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde

O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde é uma novela gótica, com elementos de ficção científica e terror.

A obra é conhecida por sua representação vívida do fenômeno de múltiplas personalidades, quando em uma mesma pessoa existem tanto uma personalidade boa quanto má, ambas muito distintas uma da outra. O impacto do romance foi tal que se tornou parte do jargão inglês, com a expressão "Jekyll e Hyde" usada para indicar uma pessoa que age de forma moralmente diferente dependendo da situação.

quinta-feira, 15 de março de 2018

Cativar

Cativar segundo o dicionário significa impressionar uma pessoa (ou várias) com seu caráter ou jeito de ser, agir ou falar.

Saint-Exupéry, no livro "O Pequeno Príncipe", dizia:

“Que quer dizer cativar? É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa criar laços.”

Cativar é uma arte que realmente está esquecida. Não queremos perder tempo com ninguém, logo, não buscamos criar laços.

quarta-feira, 14 de março de 2018

A amizade em Saint-Exupéry, no livro "O Pequeno Príncipe"

“Exatamente, disse a raposa. Tu não és nada ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim o único no mundo. E eu serei para ti única no mundo.”

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

“Mulheres que correm com os lobos”

O livro "Mulheres que correm com os lobos" aborda diversos segredos do instinto feminino primordial que muitas de nós tememos ter esquecido ou relegado.

Clarissa Pinkola Estés é psicanalista junguiana, doutora em psicologia etnoclínica e autora desse livro, levou mais de vinte anos para dar forma à sua criação mais conhecida.

As frases do livro "Mulheres que correm com os lobos" nos fazem lembrar de várias ideias. A primeira é que, apesar de toda a nossa aparente sofisticação, continuamos sendo natureza, criaturas selvagens que, de alguma maneira, anseiam por recuperar aquela liberdade ancestral para se sentirem vivas, para encontrarem sua posição no mundo.

O segundo aspecto que não podemos deixar de lado é que, como nos explica Clarissa Pinkola Estés, dentro de cada mulher habita uma força poderosa, um turbilhão de bons instintos, de criatividade, de paixão e conhecimentos atemporais que, às vezes, a própria sociedade nos faz esquecer na tentativa de “nos domesticar”.

1. Ser você mesmo

 “Sermos nós mesmos faz com que acabemos excluídos pelos outros. No entanto, fazer o que os outros querem nos exila de nós mesmos.”

Essa frase é um princípio de crescimento pessoal e de autorrealização inegável. A coragem de ser você mesmo em qualquer cenário,...

2. Ser forte

 “Ser forte não significa exercitar os músculos. Significa encontrar seu próprio brilho sem fugir, vivendo ativamente com a natureza selvagem de uma maneira própria. Significa ser capaz de aprender, ser capaz de defender o que sabemos. Significa se manter e viver”.

Forte é quem encara, quem não foge, quem mostra sem medo sua identidade, quem não se rende, quem vive com alegria e coragem.

3. Afastar-se permite encontrar a si mesmo

“Embora o exílio não seja algo que se deseje por diversão, há um ganho inesperado nele: são muitos os presentes do exílio. Tira a fraqueza a tapas, faz desaparecer as lamúrias, habilita a percepção interna aguda, aumenta a intuição, confere o poder da observação penetrante…”

O exílio, também entendido como o ato de deixar para trás o que é conhecido para enfrentar a própria solidão, a incerteza e até o estranho, nos habilita também a novas capacidades, capacidades como a introspecção, a segurança pessoal, a observação, a receptividade…

4. Os efeitos de não amar a si mesmo

 “Nosso apetite secreto por sermos amados não é bonito. Nosso desuso e mau uso do amor não é bonito. Nossa falta de lealdade e devoção é pouco amorosa, nosso estado de separação da alma é feio, são verrugas psicológicas, insuficiências e fantasias infantis”.

Os efeitos de não amar a nós mesmos são devastadores. O ato de viver frente a esse exterior no qual tentamos nos ajustar a um modelo de mulher sempre artificial, homogênea e subordinada aos outros nos leva à infelicidade. Nós devemos, portanto, observar a natureza como fizeram nossas antecessoras para redescobrir nosso valor, nossa importância e a energia que nos alimenta e nos torna fortes.

5. O verdadeiro amor

 “O amor na sua forma mais plena é uma série de mortes e renascimentos. Deixamos ir uma fase, um aspecto do amor, e entramos em outra. A paixão morre e é trazida de volta.”

O amor é a única forma que nunca se extingue ou se apaga para sempre. É uma entidade transformadora que se estende, que nos permite amadurecer, que morre e renasce, que às vezes nos tira a vida e, mais tarde, nos devolve renovado e mais intenso…

6. Chegar ao fundo do poço

 “A melhor terra para semear e fazer crescer algo novo outra vez está no fundo. Nesse sentido, chegar ao fundo do poço, apesar de extremamente doloroso, também é um terreno para semear.”

As pessoas têm um medo atroz de chegar ao fundo do poço... Nesse momento, surge algo novo, algo mágico inclusive. Nós tiramos nossas peles, nossos artifícios e pesos mortos para subir, para crescer muito mais fortes…

7. O verdadeiro conhecimento

 “Se vivemos como respiramos, prendendo e soltando, não poderemos errar.”

Essa frase simboliza nada mais do que o ciclo da vida: pegar, segurar, deixar ir, aceitar, avançar…

Para concluir,

 “A loba, a velha, aquela que sabe está dentro de nós. Floresce na mais profunda psique da alma das mulheres, a antiga e vital Mulher Selvagem. Ela descreve seu lar como um lugar no tempo em que o espírito das mulheres e o espírito dos lobos entram em contato. É o ponto em que o Eu e o Você se beijam, o lugar em que as mulheres correm com os lobos (…)”
-Clarissa Pinkola-

Do site: amenteemaravilhosa.com.br.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Fernão Capelo

Uma parte de mim é todo mundo...
Outra parte é ninguém,porem, fundo sem fundo..Giramundo..
Uma parte de mim é multidão..
Outra parte se diz apenas,incerteza,estranheza e solidão
Uma parte de mim vive a repetir ...
A outra permite ..traduzir-se !.

*Mil vidas mil dias no meu clarim.
*Não há regras que se aplicam para mim.

Releitura do poema traduzir-se de Ferreira Goulart/e uma livra adaptação do conto:Fernão Capelo Gaivota, por Pierrot & Lirics

Fernão Capelo

Uma parte de mim é todo mundo...
Outra parte é ninguém,porem, fundo sem fundo..Giramundo..
Uma parte de mim é multidão..
Outra parte se diz apenas,incerteza,estranheza e solidão
Uma parte de mim vive a repetir ...
A outra permite ..traduzir-se !.

*Mil vidas mil dias no meu clarim.
*Não há regras que se aplicam para mim.

Releitura do poema traduzir-se de Ferreira Goulart/e uma livra adaptação do conto:Fernão Capelo Gaivota, por Pierrot & Lirics

sábado, 12 de agosto de 2017

A Palestina é aqui

 É isso... Quando estoura uma guerra sangrenta o Oriente Médio, na África, um atentado violento que destrói milhares de vidas em alguma cidade europeia, ficamos chocados (Ficamos mesmo? Ainda ficamos?). Mas não percebemos que temos uma Palestina aqui dentro do nosso país, das nossas casas... Não percebemos que temos uma palestina ocupada e confinada em um campo de concentração dentro de nós... Todas essas crianças pobres jogadas nas ruas como se fossem lixo... Todas essas crianças ricas jogadas nas creches de luxo enquanto seus papais e mamães não têm tempo para cuidar delas, pois estão muito ocupados acumulando coisas... Crianças de dois anos de idade que passam o dia inteirinho na creche... Nos braços de pessoas que são pagas para amá-las...”

Texto extraído do livro "Abilolado Mundo Novo" – Carlos Maltz

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O que somos?

“Veja a situação desesperadora em que nos encontramos, e me responda você mesmo... A técnica e a ciência vão até certo ponto... Mas é muito raso. Somos basicamente emoções e água. Não temos objetividade nenhuma... Jung dizia que nós somos todos “míopes” e que o máximo que podemos fazer é nos conhecer a ponto de sabermos qual é o “grau de nossa miopia”, ou seja, para que lado a gente distorce a realidade e o quanto a gente distorce... Só o fato de o cara saber que isso existe, segundo o próprio Jung, já não é pouca coisa... O projeto modernista é bem intencionado, mas é ingênuo demais... Simplório, reducionista... O que mais me impressiona é que, mesmo depois da loucura coletiva do povo alemão, sob a batuta de Adolf Hitler, ainda existam pessoas com esse tipo de ilusão... O povo tem memória curta mesmo... Gosta de ser enganado... Como o velho Freud já bem sabia e dizia: “o povo não aguenta viver sem a ilusão... Exige ser iludido”... Veja no que é que as eleições, por exemplo, se transformaram... “Quem mente mais diz a verdade”, como bem já dizia o Gessinger... E não é só aqui no Brasil, não... Veja o sucesso impressionante que fazem esses livros de autoajuda, prometendo milagres... Sabem qual é o item que mais consome dinheiro no mundo hoje? Em primeiro lugar, guerra. E em segundo, pornografia.”

Texto extraído do livro "Abilolado Mundo Novo" – Carlos Maltz