O mundo precisa de adultos responsáveis, não de otimismo infantilizado.
Eliane Brum, no jornal "El País"
(Há) um tipo de humano que foi moldado pela indústria do entretenimento. Homens e mulheres se tornaram adultos infantilizados esperando que lhes digam o que está acontecendo, o que pensar e como reagir, e o que têm de consumir a cada vez, de produtos materiais a conceitos. É nessa chave que entra a atual neurose do “otimismo”, que faz com que os “pessimistas” se tornem uma espécie de traidores que não querem que o mundo melhore.
Já escrevi neste espaço e não me canso de repetir: acusar o mal-estar dessa época é um sinal de saúde mental. Agir como carneiros saltitantes de desenho animado enquanto a Amazônia é destruída, a falta de água ameaça São Paulo, o Ártico degela aceleradamente, os eventos climáticos extremos se sucedem e as populações mais frágeis começam a se deslocar pode demonstrar dificuldade para se conectar com a realidade. Com essa negação é preciso se preocupar.
Mas é para esse tipo de comportamento que a indústria de entretenimento preparou a geração de consumidores de emoções que aí está. E está preparando a nova que vai assumir essa encrenca. As carinhas sorridentes, a raivinha e os coraçõezinhos das redes sociais são um estágio a mais na infantilização da humanidade. Somos adultos botando desenhos fofos em posts o dia inteiro.
Por razões profissionais, costumo frequentar eventos sobre temas sérios. Tenho percebido que, de forma acelerada, parte desses encontros têm se tornado, nos últimos anos, cada vez mais parecidos com programas de TV que os americanos adoram e que parte do mundo imita. Ou seja: temas do momento com diversão e muitas piadinhas. De preferência, o palestrante ou debatedor deve se comportar como um artista de stand up. A plateia, gente adulta, claramente espera ser entretida. Diga que o mundo está acabando, mas de um jeito palatável. Em seguida, faça uma graça. A plateia ri. Às vezes faz uhuhuhu. Tudo é performance. Não se trata de condenar o riso, pelo contrário. O que me refiro é ao espanto de que isso seja necessário. Não é algo casual, isso molda a estética e a ética.
O “otimismo” foi alçado a uma espécie de superioridade moral
Assim, quem apenas diz o que precisa ser dito é um chato. E o chato ganhou outro nome: “pessimista”. Nesse contexto, o “otimismo” foi alçado a um tipo de superioridade moral. É preciso ter pensamento “positivo” para ser um bom consumidor, também de conceitos. É preciso ser divertido, leve, bem humorado.
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