sábado, 19 de outubro de 2013

Violência e repressão dos Estados

Venho alertando aqui no blog a cultura que está se formando com  base na sociedade do medo e no consequente Estado repressor.

A aprovação recente de leis draconianas como a Lei contra o terrorismo, esta ainda em trâmite no congresso, colocará a população emparedada, acuada, e com sérias restrições quando às liberdades fundamentais.

A lei do cão começa a imperar em todos os lugares e no mundo, e isso é fruto de uma política intencional para submeter pessoas e povos.

Trata-se de uma cultura e por isso sua formação vem sendo construída ao longo de anos.

Se essa metodologia, nos países periféricos como o Brasil, já atingia aos mais pobres agora ela passa a tocar a classe média.

A ampliação da abrangência da violência repressiva ocorre no momento em que o sistema não tendo mais de onde tirar as suas vantagens passa a direcionar as suas baterias contra direitos adquiridos que beneficiaram sobretudo a classe média e, como o próprio sistema já esperava, a reação vem através de manifestações, dai a criação dessas novas leis que causariam inveja a qualquer ditadura.

Nos movimentos recentes ocorrido aqui no Brasil, movimentos democráticos, de exercício de cidadania, a repressão atingiu professores, estudantes, jornalistas (como o texto aponta com detalhes) e quaisquer outros que se arvorem a protestar contra o Estado.

Para esta ideologia quem protestar contra atos dos poderes constituídos, reivindicar melhoria nos seus direitos, pleitear avanços na democracia, serão considerados inimigos do Estado.

Se na chamada Guerra Fria, em sua segunda fase, a forma de controle da sociedade era dada através do divertimento na qual Hollywood e Disney eram as suas máximas expressões, após a queda do muro de Berlim a forma de controle passa a ser substituída pela era da repressão, onde o medo foi lentamente implementado para que as formas de repressão fossem aceitas.

Hoje os jornalistas apontam esses excessos por estarem entrando, eles mesmos, no "cassetete", sofrendo as consequências das balas de borracha e gases diversos. Mas, não devemos esquecer que todo o processo de informação nos últimos anos se baseou principalmente no alardeamento da criminalidade e aplausos para as formas de repressão.

A critica não é apenas para eles, afinal quem não vibrou com o capitão Nascimento no filme Tropa de Elite?

Essa ânsia por controle contra o mínimo que ouse fugir "à ordem" anuvia a própria reflexão que a sociedade deveria fazer do momento que o mundo passa. No caso do filme a leitura média que se fez dele foi de ode à repressão quando, na realidade, o filme abordava exatamente o oposto. O filme expressa os sentimentos das classes altas e médias endinheiradas: a certeza de que "a única solução para o crime é a mão-de-ferro da repressão sem piedade", exatamente como a mídia martela, criando, ou intensificando, o sentimento de insegurança e medo, e mais ainda, justificando qualquer forma de repressão.

Agora o monstro que ajudaram a criar se volta contra eles.

A análise do momento atual com base no filme “Tropa de Elite”, pelo professor Mário Maestri:

"Tropa de Elite" não cria muito. Limita-se a encenar sentimentos que ultrapassam os limites das classes altas e médias endinheiradas: a certeza de que a única solução para o crime, corporificação da maldade absoluta, é a mão-de-ferro da repressão sem piedade. O “Brasil está em guerra”, grita-se de todos os lados, exigindo-se tratamento implacável para o inimigo próprio aos conflitos nacionais. Proposta com a qual a mídia martela uma imensa parcela da população que materializa e potencializa, no sentimento de insegurança pessoal, o stress permanente produzido pelas incertezas e insatisfações crescentes da vida quotidiana.

Nos seus limites, o filme possui soluções imaginosas, como a inversão da ordem normal dos fatores sociais, ao apresentar a execução do horrível traficante "Baiano", branco, pelo honestíssimo e muito humano Matias, policial e acadêmico de Direito, negro. Ou a melodramática superposição de papéis de Nascimento, o capitão do BOPE, organizador dos assassinatos e de sessões de tortura e homem sensível à espera do primeiro filho, símbolo da inocência do mundo que defende,  às custas de sua permanente descida ao inferno.

O deputado quer apenas saber o "quanto" vai ganhar, ao se associar a policiais que chafurdam no crime. Os estudantes discutem as causas e soluções da marginalização social, citam Foucault, mas são drogados hipócritas, traficantes e queridinhos de criminosos. São os verdadeiros responsáveis pelos crimes do traficante, ao pagar pela droga maldita. Nesse mundo em degringolada, o único remédio forte é a morte e a tortura ministradas profissionalmente por policiais incorruptíveis, que entregam dilacerados a vida se necessário no cumprimento de suas missões. Tudo pelo bem do Brasil. (...)

"Tropa de Elite" radicaliza as propostas de "Tolerância Zero" com a criminalidade, apresentadas incessantemente pela cinematografia estadunidenses de segunda linha. Sem pruridos, extrema insinuações de séries como "Lei & Ordem" sobre a legitimidade da execução e da tortura na obtenção de resultados louváveis: a eliminação do terrorista, a morte do traficante, a prisão do pedófilo.

Nos anos de chumbo, Fleury e sua escuderia maldita matavam e torturavam nas sombras, para manter através do medo e do terror a disciplina social. Hoje, Nascimento e seus boys fazem igual, tintim por tintim, no cinema e na vida real, sob os aplausos da mídia e de enormes setores da população.  Embarcando no bonde do consenso fácil, intelectuais de todos os sabores clamam por medidas excepcionais, repetindo como o sicário da ditadura, debruçado sobre a vítima inerme: – “Guerra é guerra, meu filho”!

Dentro desta nova forma de controle, a ideologia é...

O inimigo está em toda parte

No Brasil se procura aprovar a lei antiterrorismo que irá demonizar ainda mais quaisquer movimentos e manifestações públicas.

É a repressão substituindo a política na sua responsabilidade de trazer equilíbrio e organização social. A grande imprensa ao privilegiar a cultura do medo, sempre mergulhando no sensacionalismo quando trata de questões de segurança, desenvolveu e justificou esta cultura. Vinte e quatro horas por dia assistimos reportagens de crimes e violências. Programas como o de Datena fazem sucesso.

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