terça-feira, 4 de agosto de 2026

A loteria do nascimento

Quais são os custos das desigualdades?
Folha de São Paulo - Michael França
4.ago.2026 

Partindo de uma sociedade igualitária, várias desigualdades vão surgir naturalmente. As diferenças decorrentes de esforços e preferências individuais fazem parte de qualquer país. Pessoas assumem riscos diferentes e fazem escolhas distintas. Seria estranho imaginar que todas terminassem a vida na mesma situação. Porém, o desafio começa na geração seguinte.

A desigualdade produzida em uma geração transforma-se em desigualdade de oportunidades na próxima. Famílias que acumularam mais recursos conseguem oferecer vantagens aos filhos. Essas vantagens aumentam suas chances de acumular mais patrimônio. Parte desse patrimônio será novamente transmitida à geração seguinte.

Então, a loteria do nascimento começa a ganhar mais peso.

É aqui que uma discussão normalmente tratada como questão de justiça social se transforma também em um desafio econômico.

Uma economia funciona melhor se as pessoas conseguirem chegar às posições nas quais suas capacidades individuais são mais bem usadas. Pode até parecer óbvio. Contudo, sociedades desiguais fazem algo diferente. Elas costumam selecionar pessoas pela origem que tiveram. E isso tem o seu preço.

Uma parte substantiva do capital humano deixa de ser desenvolvida. Pessoas são alocadas de maneira pior. A produtividade diminui. O crescimento econômico é menor do que seria em uma sociedade capaz de aproveitar melhor as capacidades espalhadas pela população. E quanto maior for a influência familiar sobre o destino de uma pessoa, menor tende a ser a capacidade da sociedade de descobrir quem poderia fazer o quê.

Uma economia dinâmica precisa permitir duas coisas. Pessoas que começam embaixo precisam conseguir subir. Pessoas que começam em cima precisam correr algum risco de cair. Se os filhos dos pobres raramente chegam ao topo e os filhos dos ricos raramente deixam o topo, o país começa a se parecer menos com uma economia competitiva e mais com um sistema de reprodução de posições sociais.

E as consequências ultrapassam o patrimônio.

Quando a origem familiar determina excessivamente quem chega às melhores posições, a sociedade passa a aproveitar apenas uma parcela limitada de seu estoque de recursos humanos.

E existe uma ironia nisso para as elites econômicas.

A desigualdade que as beneficia é a mesma que, simultaneamente, prejudica o ambiente do qual uma parte de sua riqueza depende.

Empresas precisam de trabalhadores qualificados. Investidores precisam de boas empresas. Uma economia sofisticada precisa encontrar talentos em uma população inteira, e não apenas entre aqueles que nasceram nas famílias mais ricas. E, ainda mais importante, tem-se que o atual pacto social está esfarelando, e a hipótese de ruptura não deveria ser descartada. É justamente sobre esses custos que Daniel Duque e eu discutimos em nosso novo livro, "Os Custos das Desigualdades: uma carta às elites econômicas".

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/michael-franca/2026/08/quais-sao-os-custos-das-desigualdades.shtml

Nenhum comentário:

Postar um comentário